Minha avó, Dona Lourdes
Minha avó era uma mulher forte e simples. Segundo ela mesma, nasceu "livre" após a Lei Áurea. Dizia que teve a sorte de nascer em liberdade, mas sua mãe não teve o mesmo destino. Ela foi escravizada, perdeu a infância e a juventude nos trabalhos forçados.
Hoje, ao recordar sua história, vejo sua mãe como uma verdadeira guerreira. Foi ela quem transmitiu à minha avó ensinamentos que, mesmo sem nenhuma instrução formal, demonstravam uma profunda sabedoria. Com ela aprendi que existe uma grande diferença entre ser inteligente e ser sábio.
Minha avó foi minha primeira professora de História da Paraíba. Ela vivenciou a Revolução de 1930 e presenciou os acontecimentos que cercaram a morte de João Pessoa. Costumava dizer:
— Beguinha (meu apelido de infância), a gente foi obrigada a usar um luto, preto ou vermelho, para mostrar que apoiava a revolta. Eu trabalhava em uma casa perto da Praça dos Três Poderes, na atual Praça João Pessoa.
O que mais me chamava a atenção era sua felicidade. Morava em uma casa de taipa, coberta de palha, com chão de barro batido. Mesmo vivendo com tão pouco, nunca lhe faltava alegria.
Diariamente, pessoas chegavam à sua casa para que ela rezasse. Com suas folhinhas de pião, fazia suas orações, rezava o Pai-Nosso e a Ave-Maria, e jamais aceitava um tostão sequer. Sempre dizia:
— O que vem de graça se dá de graça.
Ela me ensinou por meio das atitudes. Era uma mulher preta, pobre, vestia roupas simples de chita e usava um lenço branco na cabeça. Eu percebia o preconceito das pessoas que passavam pela Rua Alberto de Brito, em Jaguaribe, João Pessoa (PB). Olhavam para aquela casa humilde e ignoravam a verdadeira riqueza que existia ali: a grandeza daquela mulher.
Além de tudo isso, guardo na memória os sambas que ela compunha de improviso e os ensinamentos sobre a importância de se colocar no lugar do outro. Cuidava de crianças e chegou a amamentar...
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Minha avó, Dona Lourdes
Minha avó era uma mulher forte e simples. Segundo ela mesma, nasceu "livre" após a Lei Áurea. Dizia que teve a sorte de nascer em liberdade, mas sua mãe não teve o mesmo destino. Ela foi escravizada, perdeu a infância e a juventude nos trabalhos forçados.
Hoje, ao recordar sua história, vejo sua mãe como uma verdadeira guerreira. Foi ela quem transmitiu à minha avó ensinamentos que, mesmo sem nenhuma instrução formal, demonstravam uma profunda sabedoria. Com ela aprendi que existe uma grande diferença entre ser inteligente e ser sábio.
Minha avó foi minha primeira professora de História da Paraíba. Ela vivenciou a Revolução de 1930 e presenciou os acontecimentos que cercaram a morte de João Pessoa. Costumava dizer:
— Beguinha (meu apelido de infância), a gente foi obrigada a usar um luto, preto ou vermelho, para mostrar que apoiava a revolta. Eu trabalhava em uma casa perto da Praça dos Três Poderes, na atual Praça João Pessoa.
O que mais me chamava a atenção era sua felicidade. Morava em uma casa de taipa, coberta de palha, com chão de barro batido. Mesmo vivendo com tão pouco, nunca lhe faltava alegria.
Diariamente, pessoas chegavam à sua casa para que ela rezasse. Com suas folhinhas de pião, fazia suas orações, rezava o Pai-Nosso e a Ave-Maria, e jamais aceitava um tostão sequer. Sempre dizia:
— O que vem de graça se dá de graça.
Ela me ensinou por meio das atitudes. Era uma mulher preta, pobre, vestia roupas simples de chita e usava um lenço branco na cabeça. Eu percebia o preconceito das pessoas que passavam pela Rua Alberto de Brito, em Jaguaribe, João Pessoa (PB). Olhavam para aquela casa humilde e ignoravam a verdadeira riqueza que existia ali: a grandeza daquela mulher.
Além de tudo isso, guardo na memória os sambas que ela compunha de improviso e os ensinamentos sobre a importância de se colocar no lugar do outro. Cuidava de crianças e chegou a amamentar filhos de outras mulheres. O filho do coronel Gama Batista é um exemplo disso: minha avó foi sua ama de leite.
Ela atravessou alguns dos períodos mais marcantes e dolorosos da história do Brasil. Carregava, por meio da história de sua mãe, as marcas da escravidão; viveu a Revolução de 1930 e também presenciou os anos da ditadura militar.
Esta é apenas uma pequena parte da história de minha avó, Dona Lourdes — uma mulher cuja riqueza jamais esteve nos bens materiais, mas na sabedoria, na generosidade e na dignidade com que viveu.
Alciberg Almeida
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