Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Pandora da Luz
Entrevistado por Sofia Tapajós e Aline Mendes
Local, data
Código:
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Pandora, queremos agradecer mais uma vez o seu tempo, sua disponibilidade. Queria começar perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R – Eu sou Renata Marisa Silva da Luz. Eu moro no Vale do Mulembá, em Joana d'Arc, Vitória, Espírito Santo, e nasci no dia 13 de março de 1970.
P/1 – E onde você nasceu?
R – Eu nasci no Rio de Janeiro, mas fui registrada aqui no Espírito Santo.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Meu pai era Carlos Alberto da Luz e a mãe, Marilisa Silva.
P/1 – Você sabe como eles se conheceram?
R – Sei, sim [pausa para ajustar o microfone].
P/1 – Então, como eles se conheceram?
R – Então, minha avó tinha uma espécie de pensão em Santa Marta, que é um bairro vizinho aqui. Ela servia comida. Chamava-se pensão, na época as pessoas moravam, porque servia comida. E meu pai era policial e minha mãe uma jovem e eles se conheceram na pensão. Minha mãe era a filha da pensioneira. E pronto.
R – E você chegou a conhecer essa pensão?
R – Não, não. Quer dizer, não cheguei a conhecer, eu cheguei a conviver com ela, mas eu era muito pequenininha, né? Eu me lembro vagamente do entra e sai de pessoas, eram muitos policiais e tal, mas eu não fazia muita ideia do que era. Mas eu me lembro das pessoas, de vários policiais frequentando lá em casa e tal e eu vi eles comendo, mas eu achava que era uma visita. Falava: “Nossa…” Pensava assim, uma hospitaleira, né? Mas eu achava interessante isso, as pessoas indo em casa para almoçar. E aí, depois de muitos anos, que eu descobri que era uma pensão, um tipo de restaurante popular.
P/1 – E dessa sua avó, você tem alguma lembrança?
R – Muitas. Nossa, ela está comigo até hoje. Ela era uma pessoa...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Pandora da Luz
Entrevistado por Sofia Tapajós e Aline Mendes
Local, data
Código:
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Pandora, queremos agradecer mais uma vez o seu tempo, sua disponibilidade. Queria começar perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R – Eu sou Renata Marisa Silva da Luz. Eu moro no Vale do Mulembá, em Joana d'Arc, Vitória, Espírito Santo, e nasci no dia 13 de março de 1970.
P/1 – E onde você nasceu?
R – Eu nasci no Rio de Janeiro, mas fui registrada aqui no Espírito Santo.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Meu pai era Carlos Alberto da Luz e a mãe, Marilisa Silva.
P/1 – Você sabe como eles se conheceram?
R – Sei, sim [pausa para ajustar o microfone].
P/1 – Então, como eles se conheceram?
R – Então, minha avó tinha uma espécie de pensão em Santa Marta, que é um bairro vizinho aqui. Ela servia comida. Chamava-se pensão, na época as pessoas moravam, porque servia comida. E meu pai era policial e minha mãe uma jovem e eles se conheceram na pensão. Minha mãe era a filha da pensioneira. E pronto.
R – E você chegou a conhecer essa pensão?
R – Não, não. Quer dizer, não cheguei a conhecer, eu cheguei a conviver com ela, mas eu era muito pequenininha, né? Eu me lembro vagamente do entra e sai de pessoas, eram muitos policiais e tal, mas eu não fazia muita ideia do que era. Mas eu me lembro das pessoas, de vários policiais frequentando lá em casa e tal e eu vi eles comendo, mas eu achava que era uma visita. Falava: “Nossa…” Pensava assim, uma hospitaleira, né? Mas eu achava interessante isso, as pessoas indo em casa para almoçar. E aí, depois de muitos anos, que eu descobri que era uma pensão, um tipo de restaurante popular.
P/1 – E dessa sua avó, você tem alguma lembrança?
R – Muitas. Nossa, ela está comigo até hoje. Ela era uma pessoa incrível. Ela era curandeira, ela era parteira, ela foi enfermeira no interior, porque na época, na década de 60, 70, não havia muita formação. E minha avó era de Minas, o meu avô era do Rio, e eles se encontraram em algum lugar que eu não sei, e depois vieram, migraram para o Espírito Santo e moraram em Barra de São Francisco, né? De lá, de Barra de São Francisco, eles acabaram se separando, meu avô voltou para o Rio de Janeiro, e minha avó resolveu ficar aqui no Espírito Santo e vir para Vitória. Foi aí que ela montou essa pensão. O que eu me lembro muito é das histórias que ela contava, que as pessoas contavam, são muitas histórias de coisas que ela vivenciou e tal. E me lembro da memória dela, me lembro de como ela lidava comigo, tem algumas coisas interessantes, outras nem tantas, né? Me lembro de muita coisa. O que você quer saber em especial?
P/1 – Tem alguma dessas histórias que você queira contar?
R – Da minha relação com ela? Eu vou contar uma história ruim e engraçada. Hoje, dá para rir. Quando eu era criança, na época, a medicação era um pouco estranha. Tudo era um tipo de medicação para aplicar. E aí, quando eu passava mal, já ficava apavorada, porque ela era supositória. Aí, ela botava um decúbito ventral com a cabeça presa na porta, para eu não escapar, porque ela era de idade, ela tinha medo de escapar, e me aplicava supositório. Era o pior momento da minha vida. A pior lembrança que eu tenho dela é que a mania dela por supositório era um negócio horrível, entendeu? Agora, tem outras, por exemplo, quando ela botava sentada no meio das pernas dela para fazer a tradição de pentear os cabelos, de trançar os cabelos, sempre, era muito doloroso, né? Mas é uma memória deliciosa também, porque era muito comum que ela abria as pernas, sentava no lugar, porque ela não ficava, ela era muito doente, ela me botava sentada no chão e ia penteando o meu cabelo ali. É uma memória deliciosa.
P/1 – E você tem irmãos?
R – Eu tenho um irmão, mas ele não tem memória de nada disso, porque ele nasceu bem depois, ele nasceu quando eu tinha 15 anos. Eu que cuidei dele, já era uma outra situação.
P/1 – E quando você era criança, o que você brincava?
R – Eu brincava de tudo. Minha mãe era muito liberal. Eu tinha carrinho, eu tinha bola de gude, eu brincava de pipa e brincava de boneca. Brincava de tudo. Mas, assim, os meus amigos, acho que gostavam mais de brincar comigo, porque eu tinha fartura de brinquedos, né? Na verdade, é estranho isso, mas eu não me sentia que eles estavam ali por causa de mim, eu sentia que eles estavam lá por causa da diversidade de brinquedos. Então, eu brincava muito com os meninos, o que era muito bacana, e jogava bolinha de gude, soltava pipa e brincava de carrinho. Tanto que, na minha rua, eu fui a primeira a ganhar um carro movido à pilha, uma novidade, uma inovação. Uau! E aí, ganhei esse carrinho e nossa, era um xodó que ele andava e virava e tal. E aí, todo mundo ia lá para casa, os meninos principalmente, né, porque as meninas não iam por causa disso. E era muito bom, eu gostei muito de ter podido ter essa liberdade de brincar com as meninas e brincar também com os meninos e fui chamada de muitas coisas, mas foi bom.
P/1 – Você falou da sua mãe, você pode falar um pouco mais dela?
R – Ah, minha mãe... A mãe sempre foi tudo para mim. Apesar de eu ter tido pai, a minha mãe foi mais solteira. Ela nunca se casou com meu pai e ele não era muito presente, mas era uma pessoa incrível, mas depois eu falo dele. A minha mãe é tudo para mim, porque, desde que eu manifestei qualquer habilidade na minha vida, ela incentivou. Então, por isso, eu aprendi a ler e escrever com quatro anos, por isso, eu aprendi crochê, por isso, eu aprendi tricô e depois com seis eu aprendi a costurar, e são coisas que eu faço até hoje. Não aprendi com ela, ela não gostava dessas coisas, mas ela dava o jeito dela para me incentivar. Então, eu gostava de uma coisa, eu gosto de costurar, compra agulha, compra linha, pega um pedaço de pano velho, bota aí para costurar. Eu gostava de fazer crochê, “Vamos comprar agulha de crochê”. Eu aprendi a fazer tricô em dois pauzinhos de laranjeira, na época de fazer unha, antigamente era um palitinho, que eles falavam que era palito de laranjeira. E eu tinha uma babá, porque a mamãe trabalhava de dia e de noite, né, ela tinha dois empregos, para me sustentar. A babá, na verdade, ela pagava uma mixaria qualquer para a mulher ter um pouco de recurso também, e era uma mulher negra também. E isso que eu acho bacana, era uma comunidade negra que tentava se ajudar. Então, ela vinha para casa, fazia comida e cuidava de mim e ela, para me distrair, me ensinou a fazer tricô. Foi a primeira coisa que eu aprendi. Ela é viva até hoje. E aí, a mamãe imediatamente, assim que ela viu que eu estava de fato fazendo e estava com dificuldade, porque o tricô acabava vazando, porque não tinha os aparadores no final da agulha, aí ela já comprou uma agulha de tricô para mim, comprou um novelo: “E vai fazer esse negócio aí”. Sempre foi assim. Então, tudo que eu sei, mesmo que eventualmente eu não tenha aprendido com ela, porque eu aprendi outras coisas com ela, aprendi subjetividade com ela, né? Aprendi a ser uma mulher preta, orgulhosa, a estudar, me dedicar a isso, porque, quando eu aprendi a ler, o que ela fez? Ela me ensinou a ler sem saber. Ela botava, qualquer coisa que ela via letra, ela dizia: “Lê isso aqui, essa aqui é a letra tal”. Ela foi me ensinando sem ela mesmo saber. E aí, eu aprendi a ler. Ela pagou uma professora particular para mim, sem poder, para eu continuar aprendendo a ler e escrever. Aí, ela já começou a comprar livro. Então, eu sou louca por livro até hoje. Então, eu sou o que minha mãe fez de mim, para o bem e para o mal, aprendi muito com ela. E, por fim, hoje ela está com Alzheimer. Ela era, ela foi sindicalista, mulher de esquerda. Eu seguia a esquerda, muito em função, porque ela foi do MDB da época do... Uma pessoa simples do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), né? O MDB era muito grande na época da ditadura, tinha todo tipo de pessoa. E foi indo nas reuniões do antigo MDB com ela que eu também optei por ser uma pessoa de esquerda. Depois, eu fui saber que provavelmente a minha avó foi comunista, né, por causa de histórias que minha mãe contava, que ela recebia visita e que as crianças não podiam ficar e que tudo que ela conversava era segredo, nem mesmo o marido dela participava dessas conversas. E meu avô, sabendo o que eu sei dele, ele não queria saber dessas coisas. Meu avô era um homem caseiro, sossegado, calmo, paciente, tranquilo, exatamente como o meu pai, meu pai também era assim, porque nós somos de família matriarcal e matrilineal. Então, são as mulheres que são poderosas na minha família. E tudo isso foi com a minha mãe e com a minha avó. E também aprendi o que é ser um homem com meu pai e com meu avô, e homem não é isso que a gente tem visto hoje, né? Foi bom para mim conviver com esses homens, porque me fizeram não ter tanto medo, como muitas mulheres hoje têm medo dos homens, né? É isso.
P/1 – Você falou que você ia nessas reuniões do MDB com sua mãe. Você lembra como era?
R – Ela muita fala. Não me lembro exatamente dos assuntos. Claro, eram assuntos políticos sobre a próxima eleição. Algumas coisas eu me lembro. Eu me lembro que tinha um candidato da região. Na época, não era como é hoje. Geralmente, tem um para o bairro, tem até um ou dois para a rua. Era muito complicado ser um candidato na época, mas tínhamos na região da Grande Maruípe uma pessoa que eu não me lembro mais o nome dela, mas era um candidato na época. Eu não sei se ele chegou a ser eleito. Eu não acompanhei e nunca me preocupei em procurar essa história, mas eu me lembro que eu frequentava uma casa que era numa rua, que geralmente eu passo nela sempre, ali em Taboazeiro. A casa está lá. Não sei se é a família da pessoa lá. Eu me lembro da fisionomia dos filhos dele. E de vez em quando, durante o meu crescimento, meu desenvolvimento, né, formando a vida adolescente, adulta, crescendo, eu via os filhos desse senhor que era candidato, mas nunca tive contato com eles. A maior parte do contato que eu tive foi mais através da minha mãe e de ouvir. E eu tenho uma memória que uma vez eu estava no ônibus foi a primeira vez que eu fui. Eu tinha ido na reunião com ela, ouvia a sigla MDB, mas eu não perguntei para ela, porque ela já tinha me orientado antes, porque eu tinha cometido uma falha, que em outro momento a gente conta. Eu perguntei para ela dentro do ônibus no dia seguinte: “Mamãe, o que é MDB?”, eu era muito curiosa. Ela: “Shii, a gente fala disso em casa”. Eu nunca mais esqueci disso. Isso era na clandestinidade. Não era permitido nem falar que era do MDB, porque o MDB tinha muito comunista, muito tudo. Era ali o refúgio, né? Então, você não podia falar, porque aí você podia ser presa. Mesmo sendo do MDB, você podia ser presa e torturada para dar conta de pessoas que você nunca nem viu. Se você é do partido de esquerda, então você deve saber de todo mundo ali, né? E ela fez assim. Então, aquilo ficou na minha cabeça. Em 84, quando o Tancredo foi candidato, a primeira coisa que eu fiz foi fazer campanha, e olha que foi no Colégio Eleitoral, porque a campanha tomou conta do Brasil. As pessoas fizeram uma comoção para que os deputados votassem em Tancredo Neves, e eu participei disso. Eu acho que não foi em 84, acho que não sei se foi em 82, eu não me lembro. Eu sei que eu era muito novinha. Foi assim que eu comecei a minha participação política. Através, também, da minha mãe, né? A falha que eu cometi no passado foi uma coisa estranha. As pessoas iam muito lá em casa conversar com a minha avó. Minha avó era um umbandista popular. Umbandista popular é fazer isso que vocês também fizeram aqui, afasta os móveis da sala do maior cômodo da casa e ali, baixo caboclo, baixo de tudo. Era umbanda popular. Não sei se ainda existe, uma pena se não existir. A religião estava na vida das pessoas. A religião de matriz africana era a conivência normal das pessoas. Você afastava os móveis, depois acabou junto os móveis de novo. E aí, minha casa era muito frequentada, pessoas queriam desabafar com minha avó, com minha mãe. Considerava elas muito sábias e tal. E aí, chegou uma mulher e contou uma história lá para minha mãe, e eu estava perto, ouvindo, não comentava, mas estava ouvindo. Ok, era uma fofoca. Passou um tempo, chegou outra pessoa e foi comentar e perguntou: “Ela veio aqui te falar alguma coisa sobre isso?”. A mamãe falou: “Não, não, não falou nada, não”. Eu desmenti minha mãe. Eu falei: “É mentira não”. Eu falei: “Mãe, não foi aquela mulher que veio aqui?”, porque eu achei que minha mãe tinha esquecido e eu queria ajudar e lembrar ela. Ela falou: “Não, minha filha, você está enganada, “Será? Não me lembro e tal”. Aí, por alguma razão, eu calei minha boca, não sei se eu entendi, sei que eu me calei. E eu falei: “Vou apanhar depois dessa, né?”. Aí, ela deu o jeito lá com a mulher, a mulher foi embora, aí depois ela veio me falar: “Minha filha”. Ela não me bateu, ela não foi agressiva, ela só conversou comigo e eu nunca mais esqueci. “Quando uma mãe estiver falando alguma coisa e pode ser mentira, talvez é porque a mamãe esqueceu e talvez é porque a gente não pode falar. Tem coisas que a gente não pode falar, entendeu? Então, da próxima vez que isso acontecer, você espera a pessoa ir embora e me chama num canto e me fala: ‘Mamãe, foi isso assim e assim que aconteceu’”. Aí, eu falei: “Está bom”. Então, quando ela falou para mim no ônibus “A gente conversa em casa”, foi por causa dessa história. Então, eu aprendi subjetividade com a minha mãe, que era uma pessoa extremamente mal alfabetizada, não é semi alfabetizada, porque ela não conseguia ler, mas ela conhecia as letras e foi o que ela me ensinou e foi o suficiente para eu aprender a juntar e ler [pausa na gravação].
P/1 – Como que eram esses encontros de umbanda popular na casa da sua avó?
R – Olha, minha avó era chefe do terreiro, né, dessa umbanda popular. E aí, quando ela sentia necessidade, geralmente era mais consulta, que era muito parecida com o ritual em si, né? E isso eu me lembro muito bem. As pessoas iam lá para casa “Olha, a dona Paulina”, o nome dela era Paulina, Luísa Paulina Clemente da Silva, “Olha, dona Paulina, nós estamos com um problema aqui, nós estamos com um problema ali e tal”, “Ah, minha filha”, então, afastou. Algumas já davam passagem, porque as pessoas que iam lá em casa, elas precisavam dar passagem, né, pro espírito. E aí, conversava todo mundo. Alguém da vizinhança já ficou sabendo que já abriu uma roda ali, já vai também, já consulta. Pronto, era uma coisa muito natural, assim, era comum, sabe? E era uma pedição, minha filha, porque os espíritos, eles gostam de coisas materiais. Era um tal de: “Ah, me dá esse anel aqui, vamos fazer esse trabalho”, e a pessoa não tinha como pagar, não é como é hoje. Eu não sei como é hoje, porque também eu não frequento da maneira como as pessoas que são iniciadas, né? Eu não sou iniciada nas matrizes africanas do Brasil. Então, eu não sei mais como é que funciona isso, mas, para gente, era muito natural. De repente, estava tudo igual, está aqui, de repente, estava tudo diferente, e tudo bem. Então, assim, era muito interessante. Eu adorava quando tinha esses rituais. Era muito gostoso eu conversar com pessoas que eram espíritos. Para mim, isso era um negócio incrível e eu acreditava. E eu fazia todo sentido para mim, mesmo que não fizesse, porque também não fazia, mas fazia, de alguma maneira, fazia e não fazia, coisa de criança. E para mim, também, hoje, não é muito diferente não precisa fazer sentido para eu acreditar. Sentido científico, que eu quero dizer, porque, para mim, também faz todo sentido, porque eu sei que a minha espiritualidade está comigo através do meu DNA, DNA científico, mas a espiritualidade é subjetiva. E eu acho que a minha espiritualidade também vem, porque eu tenho no meu corpo o DNA das primeiras mulheres do mundo, né? Então, é natural. Todas as coisas que eu aprendo sobre a africanidade, é mais uma coisa que eu me lembro, não é que eu aprendo, eu só me lembro, e faz todo sentido para mim me lembrar. É uma coisa tão natural que quando eu fico sabendo daquilo, realmente é como se eu apenas me lembrasse, sabe?
P/1 – Você lembra da escola que você começou a estudar?
R – Lembro. As primeiras aulas que eu tive foi na casa da minha professora. O nome dela era Tarsila, só não era da Amaral. E ela tinha uma turminha de reforço. No meu caso, ela precisava realmente me alfabetizar. E aí, eu passei a ler até rótulo de papel higiênico, né? Tudo me caía nas mãos, porque a gente não tinha tanto acesso a ficar comprando livro. A mamãe comprava livros à prestação, aquelas enciclopédias. Tinha umas pessoas que passavam de casa em casa, vendendo enciclopédias e tal. E aí, a mamãe comprava aquelas coleções e eu lia tudo. Eu lia com 14 anos, eu lia dicionário, pequenininho. Minha mãe foi chamada na escola para professora conversar. Ela já foi me dando esporro, porque eu tinha sido expulsa da escola no ano anterior. Olha só, eu vou de um lugar pro outro. Gente, vocês não ligam não. Dá o jeito de vocês. Bom, voltando para escola. Tarsila era professora e ela me ensinou. Depois disso, eu fui para uma escola que era só de filhos de policial. Como meu pai era policial, eu fui para essa escola que era próxima ali de Santa Marta. Hoje, é parte do quartel da polícia. E aí foi, eu entrei lá com 6 anos, era para eu ter entrado com 5. Na verdade, era para ter entrado antes, mas eles não aceitavam. Ninguém podia saber nada antes dos 6 anos ou pelo menos antes dos 7 também não. Eles pediam que a criança tivesse 7. Como eu ia fazer 7 em março, eles permitiram que eu entrasse com 6. E só por isso, tá? Eu acho um absurdo um negócio desse, mas, enfim, aí a primeira escola que eu estudei foi uma escola chamada Hermínio Blackman. Hermínio Blackman, que tinha o nome de Blackman, era também um homem negro, era professor, dali da região do Bonfim, se não me engano, daquela parte ali do complexo da Penha, São Benedito, o bairro da Penha. E depois eu conheci a filha dele, ela é jornalista, a mulher é incrível também. Então, depois do Hermínio Blackman, o Hermínio Blackman foi absorvido pelo quartel, ia ser reformado, para ser o que é hoje. É uma coisa louca acabar com uma escola para aumentar o quartel. Ok. Aí, eu passei para outra escola, uma escola chamada Aflordizio Carvalho da Silva. Que também era um professor. Estudei lá por muito tempo. O meu maior orgulho era que na época o uniforme era o que você tinha passado de fase, processos iniciáticos. Você muda de escola, vai para uma outra série, e a camisa era uma camisa rosa. Não tive o insight agora. E a parte de baixo era cinza. Inclusive, parecia com o uniforme da polícia. Meu sonho era usar aquela droga daquele uniforme. Quando eu entrei, o uniforme mudou. Não pude usar o uniforme dos meus sonhos. Passei a odiar a rosa. Eu tomei um monte de coisa rosa, mas eu detesto a rosa, por causa disso. Enfim, essa é a história. Depois, aí ensino médio, fui pro colégio estadual, orgulhosamente também. Eu sempre tive muito orgulho da educação pública. Eu passei por um período que eu estudei durante um ano numa escola privada, porque eu era do movimento estudantil, e eu mudei um pouquinho de escola para fazer movimento estudantil, porque aí o meu propósito era o movimento estudantil, já para deixar o passado de estudar. Não era mais tanto estudar, porque eu aprendi as coisas com muita facilidade. Eu não anotava nada, eu só ficava ouvindo, eu tirava boa nota. Eu parei de me preocupar com isso e eu tinha um pavor terrível de fazer vestibular. Por quê? Porque eu não gosto de concorrer com as pessoas, porque, ao mesmo tempo que eu sempre aprendi as coisas com facilidade, eu sabia que o fato do racismo me criava muitas dificuldades também. Essa coisa de ter que fazer disputa para mim nunca foi uma coisa bem-vinda para mim. Eu nunca fui uma pessoa competitiva nesse sentido. Eu acho que as pessoas têm que ter acesso e acho que elas têm que saber por que que, eventualmente, ela pode fazer um curso superior ou não, ou deve, ou não. Deve? Por quê? Alguns, sim, outros, talvez, técnico. Tem muita gente que não quer fazer curso superior. Então, vamos ter um curso superior. Melhor, um curso técnico importante, aprofundado, para que a pessoa que faz curso superior… A Europa tem uma lógica, assim, em alguns lugares. É a Noruega que trabalha nessa lógica, alguns lugares. Eu não parei ainda para entender bem isso, mas eu acho que é uma coisa interessante, e que a escolaridade não seja um fator para impedir as pessoas de ter acesso ao trabalho. Como assim? Eu já soube de casas em São Paulo de… Acho que foi um médico, ele fez concurso na prefeitura de São Paulo, porque ele não conseguia achar uma vaga de médico na década de 80, e ele foi ser gari, aqui, no Espírito Santo, entrar na polícia é a garantia de ter trabalho. Antigamente, não tinha o que eles têm hoje. Eles têm um curso superior de formação, enfim. Eu não sei muito bem, porque também não acompanho, mas, antigamente, a pessoa ia fazer qualquer curso superior e, eventualmente, entrava na polícia, ia entrar, acho que como tenente, ou qualquer coisa assim. Quando ela não encontrava emprego na área, ela ia para polícia. E aí, começou a acontecer também com quem terminava o ensino fundamental. Não tinha perspectiva. Aí, terminava o ensino fundamental e ia entrar na polícia, como soldado. E aí, acho que a patente só chega até sargento ou algo assim, não sei como é que é, porque tem o lance da hierarquia que também eu não acompanho, mas é a maneira como as pessoas encontram. Eu não acho que seja isso. Eu acho que ser policial tinha que ser um desejo de ajudar a comunidade, mas a polícia é formada para proteger o bem privado, nem protege o bem público. O bem público é protegido por seguranças privadas. Eu não entendo muito bem essa lógica, não, mas assim é que é.
P/1 – E como que você entrou no movimento estudantil?
R – Ah, nossa, tem que voltar bem atrás. Hum… Olha, eu acho que foi através da greve dos professores. Os professores faziam muita greve na década de 80, né? Até que na década de 70, logo que eu entrei na escola, até que não, porque a minha escola não fazia greve, eu acho. Não me lembro. Mas acho que foi por causa da greve e eu achava que era justo fazer greve. Acho que também vindo um pouco dessa lógica aí da minha mãe, né? Achava justo, mas quando eu comecei a ajudar na greve de professores e aí comecei... A primeira coisa que aconteceu uma vez foi que eu falei: “Vamos fazer uma passeada e vamos pro Palácio do Governo”. Aí, saiu um monte de garotos, crianças, garotas e garotos e vamos nós para tal passeata. Chegamos no Palácio do Governo, eu que tinha liderado a passeata, que eu sempre fui mais avançadinha do que os outros, chegou lá era coronel Aurique, nunca mais esqueci o nome. O coronel que veio lidar com a gente, era aquele monte de garotinho. Aí, falou assim: “Quem é que vai entrar para falar com o governador? Não vai entrar todo mundo não”. Ficamos tudo assim. Aí, eu pensei: “Bom, eu né, porque nós viemos até aqui”. Aí, uma amiga minha, uma colega de escola, fala assim: “Manda o Elias, porque Elias é homem”. Eu fiquei assim, olhei pro lado, olhei pro outro, mas eu não consegui ter argumento. Fez sentido para mim que mandasse um homem, né, Elias. Antes de chegar lá dentro, não sei que desentendimento que ele teve com o tal do coronel, eu sei que o coronel agarrou na camisa dele e rasgou a camisa dele, um negócio esquisito. Ele voltou para fora denunciando, eu não sei o que aquilo deu. Vocês não vão se lembrar, Elias, esse Elias, que era meu colega de escola, depois veio a ser um virtuoso violonista aqui no Espírito Santo, que infelizmente morreu recentemente, depois de passar oito anos da vida dele na rua, abandonado, alcoolizado. Ele morreu recentemente. Era esse garoto, depois, ele se tornou esse músico importante no Brasil. Ele foi um músico importante para o Brasil. Morreu há 50 e poucos anos. Enfim, ele nunca se meteu com política, e eu continuei. Aí, depois, eu conheci o pessoal do Grêmio, da ITF na época, que era o Grêmio Rui Barbosa, conheci a galera de lá. Fizemos muitas passeatas juntos. Em 1984, eu conheci o Partido Comunista e entrei no Partido Comunista. Fui filiada no Partido Comitê, filiada interna, não podia ser filiada pública, logicamente, né? Com 14 anos, fui filiada por um membro do Comitê Central. Nossa, eu era a pessoa mais importante. Com 15 anos, eu lia O Capital, todos os tomos. Eu não tinha nada o que fazer. Eu ia para a escola de manhã, de tarde eu ia para a sede do Partido e lia tudo o que tinha lá. Tudo. Até que um dia eu li O Capital. Aí, eu virei uma figura esquisita, né? Porque eu ia para os congressos da UBS e as pessoas me arrastavam de grupo em grupo falando: “Ela leu O Capital, ela leu O Capital”, e ninguém me perguntava sobre O Capital. Eles faziam outras perguntas, mas tem uma que eu nunca esqueci: “Vocês falam no socialismo e tal, querem implantar o socialismo aqui, mas e se existirem extraterrestres?”. Aí, eu me lembro da resposta, foi assim: “E se eles forem socialistas lá? Para mim, não importa se eles são, mas e se eles forem mais evoluídos do que nós somos aqui e até forem socialistas lá?”. Eu nunca mais esqueci disso, eu tinha 15 anos. Eu acho um absurdo alguém ter deixado uma criança de 15 anos ler O Capital, mas eu acho também que foi interessante. Eu não me lembro mais de nada, se é que eu me lembro de algum... Eu acho que eu não lembro mais de nada, para ser sincera. Eu acho que o que eu fiz com aquilo tudo foi ler, mas não foi para entender, foi para saber o que estava ali, o que esse cara está falando aqui. E era muito complexo, com 15 anos. Depois eu falei: “Eu não vou mais ler isso não, agora não”, mas foi interessante.
P/1 – E aí, depois, nessa fase mesmo, na juventude, além de ir para o partido, você saía, como você se divertia nessa época?
R – Frequentando reuniões. Eu amava uma reunião e, depois da reunião, geralmente a gente ia para um bar. Aí, foi que eu virei alcoólatra, entendeu? Os comunistas bebem com força. Não sei se bebem com força ainda, mas na minha época bebia. Tinha tal da Albânia, eles iam para lugar frio, e frio você bebe muito, e eles traziam um pouco dessa cultura para a gente, para trazer para dentro do partido. Eu acho que era isso, sei lá. E eu aprendi a beber com força. Então, quando a gente chegava no boteco, era a grade, assim, “Bota a grade logo aqui”, e a gente ia encher na grade. Três adolescentes, porque a gente era um trio, dois brancos e uma preta, Falcão, Luizão e Pandora. Na época, eu não era Pandora. Eu virei Pandora com 18 anos, porque foi o apelido de capoeira, foi uma iniciação. Na época, eu era Renata. E aí, eu era presidente da ONG [Organização não Governamental], 17 anos. Fui uma das pessoas que fez a retomada do movimento institucional da democracia, orgulhosamente. Estava no Rio de Janeiro quando a UNE [União Nacional dos Estudantes] retomou o prédio da UNE no Rio de Janeiro. Só não estava lá, no prédio, né, eu estava em outro lugar, eu não podia ir, não estava lá. Mas mesmo quando eu fiz faculdade eu nunca me envolvi com a UNE. Teve uma época que quiseram me envolver com a UNE: “Ah, vai ter congresso, você podia ir”. Eu falei: “Não posso, não”, “Não, mas você tem que ir, porque não sei o que, porque partida”, “Não vou, eu estou aqui para estudar. Não conta comigo para isso, não. Eu já dei minha cota no movimento institucional”. Eu passei bastante tempo na minha vida no movimento institucional, dirigente. Eu dei uma cota. Aí, chegou um momento que eu não queria mais ser igual aos outros, porque as pessoas ficavam perpetuamente no movimento institucional. Ficavam reprovando na Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo]. Tinha gente que ficava 15 anos na Ufes estudando, vai ficar fazendo movimentos antigos. Eu falei: “Eu não vou fazer isso, não. Eu não quero nem saber de UNE”. Saber, assim, no sentido de me envolver com movimentos antigos, universitários. Não, não, não, não, porque aí eu conheci o movimento negro. Quando eu fui presidente da Umes [União Municipal dos Estudantes Secundaristas], o movimento negro ficou sabendo que tinha uma pretinha lá, adolescente, dirigindo a União Municipal dos Estudantes Secularistas. Ó, que loucura. Preto não tinha espaço de poder. Nos anos 80? Nossa senhora. E aí, nasceu meu irmão. Eu tinha que levar ele para tudo quanto é lugar. Então, graças a Deus, quando a gente ia para escola falar do movimento antigo, ia sempre várias pessoas. Então, eu entregava meu irmão para alguém. Falava, fazia, não sei o que, depois pegava o meu irmão, e sempre tinham que ir umas pessoas comigo para segurar meu irmão, porque eu tinha que cuidar do meu irmão. Então, eu carreguei meu irmão na escola durante o meu período da presidência da Umes. Eu carreguei meu irmão comigo até os dois anos. Aí, quando eu conheci o hip-hop em 91, apesar de que eu dançava desde a década de 80. Quando eu conheci o hip-hop, o meu irmão ia comigo e eu carregava ele para tudo quanto é lugar. A minha diversão sempre foi propósito, até mesmo quando eu ia nos shows, nos bailes de hip-hop, o que tinha, baile black metal, o que fosse, era trabalho, porque eu sou produtora cultural. E eu sou produtora cultural antes do hip-hop, porque eu era de uma juventude militante, onde a gente fazia muito evento. Eu era do movimento antigo, a gente fazia muito evento, congresso, seminário, seminário de educação pelo Brasil afora, viagens. A gente brincava, falava assim: “Conheço o Brasil através da URBS tour”, porque a gente tinha que sair delegado. Enquanto estivesse estudando, tinha que sair delegado, sai delegado, sai delegado. Então, eu comecei a viajar muito cedo. Para mim, isso é novidade. Minha mãe foi no juizado, pegou documento para eu viajar. Minha mãe sempre foi uma mulher libertária. Por isso que minha mãe, quando ela adoeceu para mim, foi uma coisa que eu não conseguia assimilar ainda. Por mais que ela era super mãe, ela era super protetora em algumas coisas e em outras ela não era, no fato de me dar liberdade para conhecer o mundo, ter conhecimento, fazer as coisas, porque ela não pôde estudar, ela não pôde fazer nada. Então, de alguma forma, ela queria que eu fizesse. Só que aí a gente passou a ter choque geracional, que também acabou sendo um problema. Aí, ela queria me prender. Chegou um momento que ela falou: “Se eu fosse você eu não ia”. Mas agora eu vou, eu já sabia como fazer para ir, eu tinha papel, eu podia ir. Eu não precisava mais da permissão dela, e ela não deixaria de dar. Isso eu sei, tá?
P/2 – Você falou que o seu trabalho e o seu lazer se misturavam às vezes. Como é que você se sentia com isso?
R – Achava ótimo. Eu acho ótimo até hoje. O que é meu lazer hoje? É escutar o YouTube, uma palestra. Eu adoro ter tempo para isso e eu escuto fazendo essa coisa. Geralmente, eu escuto fazendo um projeto, fazendo um crochê. Eu sempre estou fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Eu não consigo fazer uma única coisa. Às vezes, eu tô ouvindo uma palestra, tô limpando casa, tô lavando roupa e lavando a louça da pia. Eu organizo o tempo, de uma maneira assim, que eu vou fazendo uma coisa uma atrás da outra. Eu não faço, tipo, ou eu só lavo a louça, ou eu só lavo a roupa, ou eu só limpo a casa. Não, eu faço tudo junto. Eu varro um cômodo, aí aproveito e já passo o pano, aí já boto a roupa na máquina, já pego a água da máquina, porque tem que ser encontrada. Pego a água da máquina, já jogo na... já limpo a casa, ou boto uma roupa de molho, ou lavo. Tem que estar junto, lavando a louça, aí já boto para secar e, enquanto seca, eu já deixo na água, aí boto as coisas no lugar. Mas isso, quando acontece, é um momento ímpar. Vocês podem ver pela casa, porque eu não dou prioridade a isso. Minha casa, meu castelo, é, mas eu não preciso que... assim, eu quero que esteja no lugar tudo, mas, às vezes, arrumar faz com que eu perca as coisas, entendeu? Então, assim, eu contrato quem vem arrumar, então agora eu tô com problema para quem vem limpar a casa, limpar a casa mesmo, fazer faixinha, que isso eu não faço. Eu acho para mim uma perda de tempo. Eu tô deixando de ler alguma coisa, eu tô deixando de aprender alguma coisa e eu não vou fazer isso, porque eu tenho uma casa para limpar. Tem pessoas que fazem isso muito melhor do que eu e eu honro a pessoa. Eu trato a pessoa com decência, eu pago o que ela pede. Se eu não puder pagar, eu não chamo. Então, assim, eu procuro ter respeito com o trabalho doméstico, eu tenho que ter respeito, porque se eu não faço, eu vou desqualificar quem faça? Não, eu tenho que desqualificar a mim, que é eu que não faço, eu que sou a burra no rolê. Eu não posso desqualificar um serviço que não seja um serviço intelectual, porque ela precisa entender, porque eu não... Quando eu contrato uma pessoa, e eu tô falando pessoa porque não são só mulheres, tá? Que limpam as casas das pessoas. Eu já tive faxineiro homem gay, eu já tive faxineiro homem hétero e mulher. Então, eu contrato quem aparece. E eu esqueci o que eu estava falando. Onde eu estava, gente? Que eu ia falar do serviço doméstico, enfim. Me ajuda aí, gente. Depois, vocês cortam aí. Enfim, eu não sei o que eu estava falando sobre isso. Desculpa.
P/2 – Está falando sobre misturar o trabalho às vezes.
R – É. Então, isso. Então, assim, eu busco pessoas que façam coisas que eu poderia fazer, mas que eu prefiro não fazer, até para gerar o dinheiro, sabe? Eu tento não fazer esse tipo de trabalho, não é que eu tente, eu não quero fazer, não gosto de fazer. Por exemplo, eu não cozinho. Eu prefiro comprar comida de quem faça comida decente mesmo, porque eu cozinho muito mal. Não faz sentido para mim eu ficar insistindo em cozinhar e comer comida ruim. Não faz sentido para mim achar que aquela varridinha que eu dou básica e passo mope de vez em quando, quando a Felícia faz alguma coisa dentro de casa, porque ela não faz, mas ela fez um banheiro essa noite. Não faz sentido para mim isso, entendeu? Eu quero estar fazendo o meu crochê, minha tricô, minha costura, ouvindo minha palestra, fazendo o meu projetinho, escrevendo minhas coisas, minhas pesquisas, as coisas que eu fico imaginando. Isso faz sentido para mim. E minha casa está aqui bem para mim. Pronto. Limpar tem que ser outra pessoa, cozinhar tem que ser outra pessoa, encanador, tudo é outra pessoa, porque eu faço o dinheiro girar.
P/1 – Fala um pouco sobre a Felícia.
R – Ah, Felícia, Felícia. Felícia foi uma situação tão complicada que ela chegou na minha vida. Eu estava chegando de Brasília de uma situação horrível que aconteceu. Eu fui convidada para assumir um cargo ligado ao hip-hop e, quando eu cheguei lá, eu fui mandada para lá a meia boca, de qualquer maneira, as pessoas não tiveram consideração por mim e me mandaram para Brasília para ocupar o carro. Quando eu cheguei lá, eu fui desautorizada pela deputada federal Maria do Rosário. Ela simplesmente falou que eu não poderia assumir, porque tinha que ser não sei o que, tinha que ser isso, tinha que ser aquilo. Não é verdade, porque tem um monte de gente que é secretária de várias frentes parlamentares no Congresso Nacional, dentro da Câmara, que não são funcionárias de gabinetes, mas, por alguma razão, ela resolveu me envergonhar. Não sei o que eu fiz com ela e eu passei quase 15 dias de favor na casa de uma pessoa lá em Brasília. Depois, se você quiser cortar isso, não tem problema não, mas eu preciso contar, porque eu cheguei muito mal aqui em Vitória. Vamos passar para essa parte, amigão. Cheguei muito mal por causa de vários acontecimentos que eu tive em Brasília, vários aborrecimentos. Quando eu cheguei na porta da minha casa, com as minhas malas, eu acho até que alguém tinha ido me buscar no aeroporto e a pessoa estava comigo. Eu não me lembro agora quem era, mas aí o meu vizinho chegou com ela, pequenininha, aquela cadelinha, lindinha, de olhinho azul: “Trouxe para você”. Parece que ele estava adivinhando que eu estava chegando. Eu estava fora. Eu estava na porta com a minha mala, e ela não tinha conseguido entrar nem no meu quintal. Vem ele com a Felícia e falou: “É para você”. Eu falei: “Eu não posso, querida. Eu não tenho condição. Olha só, eu viajo demais. Não dá. Eu não tenho condição de cuidar”. “Não, mas como é que eu vou fazer? Eu trouxe para você e eu tenho que ser esquiva. Não, você vai ter que ficar. Não, você vai ter que ficar. Então eu vou deixar ela aqui, vou soltar ela aqui”. E aqui, na época, tinha muitos cães na rua. As pessoas largavam, abandonavam os cachorros aqui. Aí, eu falei: “Tá, vou ficar”. Eu lembrei da minha mãe. Tudo a minha mãe. A minha mãe sempre falava: “Você é muito só. Você precisa ter um animal, um cachorro”. Minha mãe gostava muito de animal, a mamãe amava animais. Ela mesmo tinha dois. Eu não gosto de animal preso. E hoje, às vezes, eu tenho que prender ela. Eu não gosto disso. Então, ela é minha companheira, ela é minha parceira. Ela fica dentro de casa comigo. Ela já dormiu na cama comigo. Hoje, ela dorme no quarto comigo, no tapete, na beira da minha cama, mas ela é minha companheira. Eu falo com ela, assim, converso com ela normalmente, ela entende. Eu chamo a atenção dela. Eu agrado ela. Eu compro comidinhas para ela. Eu já tentei vestir ela. Ela não gosta de roupa. Então, ok, não gosta de roupa, mas o principal dela não é lidar com ela como as pessoas lidam com o pet, porque ela não é minha filha, ela é uma companheira de jornada. Eu já viajei para Brasília com ela aqui, deixei ela dois dias aqui com comida, com água, tudo certinho. E quando eu cheguei, ela estava me esperando, porque eu deixei a porta aberta, porque eu queria que ela me visse quando eu chegasse. Eu não podia trancar ela aqui dentro de casa, mas ela teve que ficar dentro de casa, porque eu não podia deixar a casa aberta com ela, porque aí também dá muito mole, né? Mas ela é como um ser humano. E quando se fala os kardecistas, eu não acredito em reencarnação, mas os kardecistas falam de maneira muito... Eu acho muito poética a maneira como eles falam da reencarnação, né? Que primeiro a gente é um mineral. Depois, a gente é um vegetal. E aí, o processo evolutivo. Depois, a gente é um animal. E aí, dizem que a gente é ser humano evoluído, dizem que ser é ser humano é evoluído, né? Eu não acredito também nisso, não, mas eles falam que a gente está evoluído. Então, Felícia está a um passo de ser um ser humano, mas às vezes eu acho que ela já foi e ela é um ser humano preso. Sabe aquele filme de cachorro que ser humano que vira cachorro? Acho que faz muito sentido para a Felícia, porque às vezes ela é muito humana. Quando eu fico sem comer, ela me obriga a comer. E eu vou mostrar para vocês como que ela faz, quando ela vê que eu não estou comendo, ela não me vê comendo, ela precisa me ver comendo. Aí, ela não come a comida dela na vasilha dela. Eu tenho que comer, porque ela quer comer na minha vasilha. Eu descobri isso, porque eu dava a comida dela e depois ela ia cheirar as minhas marmitex. Aí, eu peguei e experimentei botar a comida para ela na vasilha. Aí, ela comeu e depois eu experimentei botar só na vasilha. Se ela não vê eu comendo, ela não come. Então, eu tenho que comer todos os dias. Isso não é animal e eu não ensinei isso para ela. Aliás, eu não ensinei nada para ela. Ela muito raramente urina ou defeca em casa, no banheiro, nunca no meio da casa, porque uma vez ela fez medo e eu falei: “Uai, Felicia, o que é isso? Como é que é? Aqui no meio da casa?”, igual eu falaria com o ser humano. Nunca mais aconteceu, nunca mais. E ela é minha lésbica, né? Ela foge de casa às vezes, porque ela gosta de rodar, ela gosta de uma rua. Ela nunca volta para ele, ela se cuida. Isso também não é muito animal. Aí, eu brinco com meus amigos quando eu saio passear com ela. Aí eu falo: “Essa é cadela aí é meu cachorro”. Falei: “Não, ela é sapatão, meu bem. Não, ela é sapatão”. Eu acho que ela é mesmo, sei lá. Se é que isso é possível, porque tem cachorros que se tornam gays, né? Quando eles não têm fêmea por perto, eles se relacionam entre si. Então, eu não acho muito estranho a Felicia ser sapatão, não. Ela não cresceu com outros cães e ela já teve uma cria, mas eu acho que não foi satisfatório para ela, porque ela demorou cinco meses para ela ceder. Aí, ela já teve uma ninhada, mas eu acho que ela não gostou, porque a última filha dela, quando eu mandei embora, ela ficou muito triste. No outro dia, ela era a velha Felicia. Aí, eu falei: “Ok, agora você vai para dentro de casa. E acabou essa brincadeira de se relacionar. Vamos acabar com esse negócio. Aqui em casa, agora, todo mundo é assexual”. É isso. Essa é a minha Felicia. E ela foi batizada de Felicia, porque ela é chata. Ela é chata, ela adora visita, ela adora receber, ela pira quando vem gente aqui em casa. Nossa, ela pira mesmo. Ela gosta muito de receber. Eu já não tanto quanto ela. Então, às vezes eu já pensei... Tem uma piadinha que conta que o cara levou o cachorro para o veterinário para tosar o rabo, cortar o rabo, sei lá como é que chama. E aí, na semana seguinte, ele voltou para cortar mais um pouquinho. E depois, falou: “Cara, não tem mais nada o que cortar”. Aí, ele falou assim: “Entenda, minha sogra vai chegar e eu não quero nenhuma manifestação de alegria quando ela chegar”. É brincadeira, mas assim, é uma piada sobre cortar o rabo de animais que quebram muito o rabo, né? Tem animais que eles batem a cauda em vários lugares e, aí, tem que cortar, mas não é o caso da Felicia, mas às vezes ela é tão esfuziante com as pessoas que chegam aqui em casa que me dá uma gastura. Desculpa gente, eu sou prolixa. Vamos seguir.
P/1 – Queria voltar de novo, te perguntar como que foi esse primeiro contato com o movimento negro?
R – Então, eles ficaram sabendo de alguma maneira, realmente, que tinha uma pessoa, uma jovem preta. Eu tinha 17 anos. E aí, Luiz Carlos Oliveira, agradecer a ele, que é um dos nossos mais velhos aqui, ele me procurou e me falou, começou a me falar disso, eu não me lembro nem aonde. Ele me encontrou, ele me procurou em algum lugar, não me lembro como foi. Aí, falou: “Vai ter uma reunião do movimento negro e tal”. Do Secom [Secretaria de Comunicação Social] na época, né? Ia ser num local ali na Praia do Suá, Praia do Suá não, na Praia do Canto, Praia do Canto era Matagal. E tinha um tipo de bar lá que tinha uma banda de samba aqui no Espírito Santo, que agora eu não me lembro. Era um nome sugestivo, inclusive, sabe? Não me lembro agora, então eu não vou arriscar. E aí, eles iam tocar lá, então antes ia fazer uma reunião, porque esse pessoal dessa banda de samba também era do Secom ou tinha uma das pessoas e a gente fez uma reuniãozinha lá. Aí, ele me chamou lá, foi lá. Eles falaram e tal. Eu não me lembro da conversa, não me lembro da reunião, eu me lembro da reunião em si, que era nesse bar. Pronto. Todo o movimento negro. E aí, passei a frequentar as reuniões, as reuniões eram nas escolas, aqui e ali, vinha muita gente do Rio de Janeiro, muita gente hoje que é muito reconhecida no movimento negro, como o Januário, que eu acho que era do SEAP [Secretaria de Estado da Administração e da Previdência], na época, até hoje, acho que ele faleceu. Enfim, não boto isso não, gente, eu não sei. Januário, veio aqui. Flavinho, que é de São Paulo, que é uma pessoa também muito antiga no movimento negro. Arcelio Faria, que é do Rio de Janeiro. E aí, Arcelio, a gente conheceu ele, eu conheci ele nessa época, a gente é ligado até hoje, a gente fala que é irmão. E eu conheci uma galera que é reconhecida no movimento negro. Ivani, que é muito reconhecida no movimento negro, Babalichá Ivani. Nossa, muita gente importante, muita gente bacana. Depois eu conheci lá de São Paulo Édio Silva Júnior, que depois veio a ser secretário de justiça de São Paulo. O primeiro homem negro secretário de justiça de São Paulo, conheci ele também. Conheci o professor Fernando Conceição, que acho que está dando aula na UFBA [Universidade Federal da Bahia] agora, que abriu a discussão sobre reparações no Brasil. Eu conheci muita gente importante. Não consigo ter memória, mas muita gente importante. Tem um professor, um advogado, um jurisprudente, Prudente o nome dele, lá no Rio de Janeiro, que é um jurista hoje, um homem negro, que fala da jurisprudência ligada à questão étnico-racial, que é uma pessoa importantíssima também no direito, né? Nossa, muita gente importante. Eu aprendi com essas pessoas, eu sou cria dessas pessoas. Eu acho que é muito natural que eu tenha acumulado, né, algum conhecimento.
P/1 – E o hip-hop, como que chegou em você?
R – O hip-hop chegou em mim quando o nome não era hip-hop. Quando a gente nem sabia. A minha mãe gostava de black music, então em casa eu ouvia black music nacional, Cassiano, Hildon, Ileana Pitman, Lady Zoo. Ai, tanta gente bacana da década de 70, e eu ouvia isso. Mamãe era festeira. Depois, a mamãe parou de beber e nunca mais bebeu, mas ela gostava de tomar um goró e gostava de fazer festa. Era muito comum fazer festa na década de 70. Todo mundo fazia festa de qualquer maneira. Guardava os móveis aqui e ali e fazia festa dentro de casa, tudo apertado. E eu dançava soul music, o funk Miami na época, né? Na época, não era chamado assim, chamava de funk. Ok. Conheci uns mineiros, vizinhos, que para mim é ainda o lugar que sustenta essa história do funk soul music, né, no Brasil, é Minas, adoro, quando eu vou lá, que tem coisa assim, um baile. Nós já fomos em bailes maravilhosos lá. E quando começou, quando todo mundo conheceu o hip-hop através dos filmes, eu também conheci, 82, e comecei a imitar Michael Jackson. Antes eu já imitava Michael Jackson, que aí tinha uma febre, que não é da época de vocês, mas talvez os pais de vocês saibam disso, tinha um negócio de imitar a artista bacana. Hoje, não existe, mas hoje acho que tem outros nomes, cover, tem outras coisas. Então, a gente era imitação de fulano de tal, eu imitava Michael Jackson. Lógico, é um rotundo poderoso da música pop, preto. Então, eu comecei a dançar igual a Michael Jackson. Então, eu comecei a imitar, era break, mas a gente não chamava de break. A gente chamava de quebradinha, dança quebradinha, porque tinha o pop e o lock. Não me peçam para fazer isso não, pelo amor de Deus, mas, enfim, era quebradinha. A gente conheceu o break, depois que a gente foi saber que o nome era break. E aí, no início, eu imitava o Michael Jackson, tinha um monte de gente que imitava o Michael Jackson, mas ninguém continuou, eu continuei dançando. E aí, fui ver os filmes e saía do cinema vendo os filmes. Então, eu dancei muito na Praça Costa Pereira. O pessoal ficava chocado, nem ninguém parava para ver eu dançando, não era isso. Todo mundo achava que eu era louca, porque todo mundo saía normal e eu saía dançando. Estava música na cabeça e eu saía dançando. Sempre adorei dançar. Minha mãe me estimulou a dançar. Eu dançava no Sesc [Serviço Social do Comércio] lá no centro. Ela pagava para eu aprender a dançar. Minha mãe me estimulou muito. Eu fazia ginástica olímpica, ginástica rítmica. Então, dança para mim… E é isso. Isso é década de 80. Que hip-hop, eu ouvi falar nisso. Eu já era do Movimento Negro desde 1987 e, em 1991, o Movimento Negro dá uma tarefa para nós jovens do Movimento Negro, que era eu, Isomar Vidal, Gustavo Ford, Ilma Viana e Danusa Brício: “Vocês vão organizar a juventude negra”. 90, 91. Beleza. Aí, a gente: “Que juventude negra? Como é que a gente vai fazer? Meu Deus do céu, e agora? Ah, tem uns caras dançando ali. Tem uns pretos dançando ali no Carmélia”. O Carmélia foi palco do primeiro grafite do Estado Espírito Santo feito pelo Sagaz. Vamos lá. Os caras estavam lá dançando. Quem falou isso, inclusive, fui eu, porque eu já conhecia eles, porque eu era modelo. E aí, eu tinha desfilado com um dos meninos que dançavam lá. Na época, os que tinham desfilado comigo, se eu não me engano, era Paulo Black, Epitácio Black, que eles eram uma dupla, tinha mais algumas pessoas, que agora eu não me lembro o nome, mas eles estão lá ainda, o Paulo Black e o Epitácio. Hoje, o Epitácio é do samba e o Paulo Black ainda dança. Essas são minhas velhas escolas. “E vamos lá no Carmélia”. Foi eu até que falei: “Vamos lá no Carmélia. Tem uns pretos dançando lá”. Pronto, reunimos aqueles pretos. “Ah, o que nós vamos fazer?”. Eles tinham dificuldade, porque o Carmélia era complicado, apesar de tudo, lugar de cultura, era uma chateação para eles ensaiarem lá. Aí, a gente articulou com o Movimento Negro, o Movimento Negro articulou, vamos para uma escola, né, ali na Ladeira São Bento, tanto que a nossa história, muito da história do hip-hop, é ali na Ladeira São Bento. Na época, era a escola que ainda tem lá, que é o centro de supletivo, ainda é um centro de supletivo. Aí, o Movimento articulou com o pessoal de partido, né, PT, na época, articulou, vamos lá e passamos a estar lá. Se dá não. Aí, nos reunirmos lá, passamos a nos reunir na Ladeira São Bento, nessa escola, e a gente levava uma televisão velha, aquela de tubo ainda, 20 polegadas, um videocassete, que era uma coisa que quase ninguém tinha, arrumou emprestado, sabe Deus com quem, e a gente fazia cineclubismo. Então, todos os filmes, na época, que a gente podia envolver, a gente via. Eu trabalhava na locadora, olha que coisa interessante. Então, tudo que era filme ético, racial, que surgiu na época, eu fazia a dona da locadora comprar e ela comprava. Tudo que eu falava “Vamos comprar isso aí, vamos comprar. Filme racial, vamos comprar”, e ela comprava e eu alugava aquele trem, mas eu comprava, porque eu pensava na gente. “Vou levar para lá”, e eu levava o filme para lá no sábado, e a gente assistia ao filme, discutia o filme, e depois o pessoal ia treinar break. O hip-hop aqui no Espirito Santo, assim como no resto do Brasil, começou com o break. Depois é que a gente foi saber que o nome daquilo era break e que depois o coletivo de break, grafite, MC e DJ, e conhecimento, agora, porque as pessoas demoraram muito para reconhecer o conhecimento como um elemento fundamental, mas ninguém fez nada disso sem conhecimento. Ok. Então, a gente falava dos quatro elementos. Então, a questão racial sempre foi muito presente para todo mundo que é da velha escola. Eventualmente, tem um ou outro que discorda de se discutir, de ser racializado. O hip-hop aqui no Espírito Santo é racializado, o hip-hop no Espírito Santo é muito parecido com uma casa de culto africano, que tem mãe, tem pai, porque muitos dos hip-hopers, eu costumo falar, por exemplo, que os meus pais no hip-hop é o Alex FM e a Mônica FM. Quando eu cheguei no hip-hop, a Mônica tinha se afastado, mas eu já sabia que ela tinha passado por ali. Então, eu faço questão de honrar isso. E aí, depois, quando ela começou a ouvir falar de mim também, que a gente demorou para se conhecer, todo mundo falava: “Você tem que conhecer a Mônica”. Falava: “Vou conhecer a Mônica”. Aí, um belo dia, a Mônica estava lá em Laranjeiras, onde o pessoal do break se reuniu, reuniu acho que por mais de 20 anos, né, em Laranjeiras. Eu fui lá, a Mônica estava lá, nos conhecemos e somos amigas e companheiras de jornada agora também. E o Alex FM já estava presente, sempre esteve presente quando eu cheguei, não só ele. Ah, e o Paulo Black, o Paulo Black foi uma das pessoas, com vários outros, que foram para São Paulo dizer “Lá no Espírito Santo tem hip-hop”.
P/1 – E você consegue descrever como era esse lugar, a Ladeira de São Bento?
R – Consigo, sim, mas tem um documentário que vocês podem assistir para poder ajudar aí a pensar. Olha, a Ladeira de São Bento, a escola fica numa ladeira ali no Centro de Vitória, eles tinham um pátio enorme, hoje já nem tem mais esse pátio tão grande, fizeram construções e tal ou talvez eu tivesse a expectativa de ser grande, mas eu acho que era porque dava para ver a casa do vizinho, hoje não dá. Enfim, tinha uns bequinhos de umas coisas, tinha um pátio enorme, calçado, sabe? Prontinho para gente. E a gente, depois de ver o filme, alguém tinha um motorádio, que a gente conseguia escutar uma rádio de São Paulo, que é a primeira rádio que tocava rap. Então, na hora, era um culto. A gente parava para escutar só aquilo, ninguém podia peidar, shiu, porque a gente queria escutar cada música, cada detalhe, porque não tinha dinheiro para ficar comprando vinil. Aí, quando podia, a gente gravava, e quando a fita quebrava, a gente emendava com Durex. Inclusive, os caras falam disso em música. Era muito complicado. E, depois de ouvir esse programa de rádio todinho, aí a gente precisava de um som. Tinha o Renegrado Jorge, que tinha um equipamento de som, que é o primeiro rapper do Espírito Santo, ele tinha um som, tinha esse picape, ele trabalhava em banco, ele tinha recurso, ele tinha um Opala, que a gente falava que, se virasse, ia acabar o hip-hop no primeiro Espírito Santo, porque eram pouquíssimas pessoas. Aí, às vezes, ele podia levar o som dele e, às vezes, ele não podia. Ok. Aí, eu sempre fui articuladora. Por isso é que eu sempre fui do conhecimento, porque eu articulei uns caras da minha escola que tinham equipamento de som e queriam ganhar um troquinho, e eles levavam o som lá para gente escutar, e aí a gente fazia, eles falavam assim: “Ó, nós cobramos tanto”, mas tinha dia que não tinha tanto. Então, a gente fazia uma vaquinha ali, todo mundo tirava o que tinha no bolso e o que fizesse era o que dava que o cara ia levar para casa. Então, para ele, estava bom, porque o som estava parado na casa dele também. Então, depois eu não sei se continuou, se não continuou, sei que houve um momento que a gente resolveu gravar um vinil. E eu, como já viajava muito, já era viajada, por causa do movimento do tio, conheci um monte de gente, tinha lugar para ficar e tal. Ok, me encarregaram, aí eu fui para São Paulo, depois, eu fui pro Rio, saber da questão de como é que fazia o vinil. Para São Paulo, eu fui para galeria, né, o Paulo Black já tinha ido, as pessoas já tinham ido, eu fui para galeria para saber como é que tinha rolado a situação, como é que rolava a situação, para gravar, para masterizar, não sabia nada. E eu não me lembro se eu fui direto pro Rio, de São Paulo, ou se eu vim para inspeção depois que eu fui pro Rio. Eu sei que, quando eu fui pro Rio, aí eu conheci umas manas lá, que já estavam cantando. Olha que bacana, mas eu não me lembro delas, não sei se já eram as moleques que estão na atividade até hoje, talvez até foi, a Edwella, que está desde as antigas cantando, eu não me lembro, mas eu conheci umas mulher. E o Gabriel Pensador já era conhecido e aí o Bil estava começando, acho que foi no período que ele foi preso, não me lembro. Eu não sei se foi no mesmo período, eu sei que aí eu conheci uma galera lá, enfim. Peguei umas informações, quando eu cheguei no Espírito Santo, houve uma situação lá na Ladeira São Bento, a gente não podia usar, porque eu tinha uma chave, e a gente deixou uma cópia para quem ia abrir no período que eu estava lá. Quando eu cheguei lá para reunião e as pessoas que tinham faltado na semana anterior, quando eu estava fora, a gente chegou, a chave não entrava, tinham trocado os moldes de chave, a gente não podia mais usar o espaço. Aí, eu fiquei sabendo que a galera que morava na Serra foi para Serra, e uma galera que era de Vila Velha, que não tinha gente de Vitória quase, muito pouquinho de Vitória, era mais o pessoal da Grande Vitória, foi para Vila Velha, e lá, aí sim, já era na correria de montar a Juventude Negra. Lá, a gente conseguiu montar. Montamos a primeira, eu vou falar isso, porque já foram pesquisar, a primeira organização oficial de Juventude Negra do Brasil, que o nome era Nação Zumbi (Ojabe?), Organização da Juventude Afro-Brasileira, na época tinha um negócio de querer se chamar de afro-brasileiro e não pretos ou negros, afro-brasileiro. E Nação Zumbi parece que foi uma coisa ancestral, porque logo depois que eu fiz Nação Zumbi (Ojabe?) aqui, porque eu pensava a gente enquanto nação mesmo, enquanto pretos de uma nação diaspórica, e essa nação era uma nação zumbi, era um conceito na minha cabeça. Aí, surge Nação Zumbi lá em Pernambuco, né? Pernambuco. Cara, falei: “Nossa, e agora? A gente vai poder usar? A gente não pode usar? Mas eu pensei primeiro, quando eu pensei aqui, não tinha isso aí”. Aí, por machismo, por quê? Porque eu pensei no nome, eu escrevi o estatuto, eu fazia essa parte organizacional, sempre gostei dessa parte, de contribuir com aquilo que ninguém queria fazer. Por isso que eu sou do conhecimento, porque eu fazia as coisas que ninguém queria fazer, organizar eventos, articular, pedir. Ninguém tinha essa ambiência, eu tinha, porque eu lidei com política, lidei com movimento antigo. Era isso que a gente fazia no movimento antigo, advoga-se. Então, eu fazia advoga-se por hip-hop. Então, nadei de braçada. Já vinha de uma articulação, conhecia um monte de gente. E aí, lá, fundou, mas, por causa do machismo e falta de reconhecimento, eu me afastei. Eles estão registrados até hoje, eu acho e, de vez em quando, acho que eles até se reúnem e tal. Nunca me chamaram de volta. Olha que engraçado. Eu convivo com essas pessoas, eles nunca falaram assim: “Pandora, vem, vamos”. Agora, eu tô com 56 anos, a gente fundou essa organização em 92, se eu não me engano. Nunca me chamaram. O machismo, mesmo que eles acham que não são, nunca me chamaram. Eu me afastei e eu comecei a envolver outras coisas, né? Eu comecei a levar pessoas gays para lá, pessoas lésbicas, porque eu queria... Eu acho que essas coisas do oprimido, são coisas do oprimido. O oprimido precisava se organizar, o oprimido precisava estar junto. E eu tinha muitos amigos gays, eu vivia muito com os LGBTs [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero], porque eu também sou uma das fundadoras do movimento LGBT no Espírito Santo, né? Ajudei a fundar o fórum municipal, ajudei a fundar o fórum estadual. As pessoas questionavam por que eu estava lá, sendo que eu era, no conceito das mulheres, uma mulher casada com um homem, né? Não é essa a relação, nunca tive essa concepção de ser uma única coisa, né? Eu sou não binária. Para mim, apesar de estar naquele momento com um homem, mas eu já tinha me relacionado com mulheres e já tinha me relacionado, inclusive, com homens gays, porque os homens gays também são curiosos, eu também era curiosa, a gente estava tudo curioso, vamos lá, entendeu? Eu tive namorado gay, que todo mundo sabia que era gay, e ele não deixou de ser gay, porque estava comigo. Eu sabia dos segredos dele, era para mim que ele encontrava os segredos pessoais, sexuais, dele e era para mim que tinha que contar. Não era eu que estava mais próxima dele? Com a família, ele não podia desabafar. Eu sabia. Então, tudo que ele vivenciava com relação à sexualidade dele, era eu. Então, a gente tinha uma relação muito completa, mas os professores achavam horrível quando eles viam a gente se beijando. Por quê? Porque ele era gay. E só podia ser gay. Então, era estranho ver um cara gay assumido na escola, que, quando se formou, botou aquela beca preta e fez um peitoral todo cheio de rendinhas. Era o único de rendinha, nem as mulheres tinham rendinha, ele tinha rendinha, e nós estávamos lá de maldade. Qual é o problema? Eu não tinha problema com isso, mas as pessoas tinham problema com isso, entendeu? Então, é…
P/1 – E aí, nesse período da Nação, em Vila Velha, teve algum momento, alguma história, que você gostaria de contar?
R – Foi uma participação muito incipiente, porque assim que a gente se organizou, que eu comecei a subverter a ordem machista, aí eu me afastei. Eles continuaram para lá. Algumas poucas mulheres se aproximaram, sim, mas eu acho que elas não tiveram nenhum... E aí, eu fui me tornar essa pessoa que eu sou hoje, fora dali. E aí, eu voltei a tratar com o pessoal que era de Serra, Suspeitos na Mira, e a galera da banca Bicho Sul, com quem eu sempre tive mais proximidade. E aí, foi chegando mais pessoas, e a gente foi acolhendo, o hip-hop foi crescendo, e eu me tornei essa pessoa. E aí, em São Paulo, eu ganhei um apelido, que aqui no Espírito Santo, muita gente passou muito mal com isso, né? Porque, quando eu chegava em São Paulo, o Marcão do DMN, que é Defensores do Movimento Negro, tinha um grupo em São Paulo chamado Defensores do Movimento Negro, que é o Marcão, que é o Slim, que, enfim, corta essa parte de nomes. Enfim, tinha o DMN e o Marcão, que era meu amigo, quando eu chegava em São Paulo, eu usava calça jeans larga, caindo, igual os caras, sunga samba-canção, camisa, pá, mas aí eu botava ela um pouco mais para cima, porque eu queria mostrar a minha samba-canção, então eu não podia ser só muito masculina, eu queria mostrar tudinho. Então, eu era muito... Era um cara gay, né? Blusinha curta, samba-canção e sobretudo, que eu ganhei da minha mãe, cinza, e eu usava um chapéu Panamá, que eu tenho até hoje, todos os dois. E eu chegava lá em São Paulo assim, aí o Marcão falava: “Pandora, quando você chega aqui, com sobretudo aí, a sensação que a gente tem é que você vai puxar duas dozes assim, pá, pá, pá”, que ele falava que eu parecia um dos intocáveis, entendeu? Aí, começou a brincar: “Chegou a dona do hip-hop no Espírito Santo”. Falava: “Vocês param de falar isso, que você vai me criar um problema um dia desses”. Criou o problema muitos anos depois, porque o pessoal da velha escola, que nunca teve contato comigo, não sabia nada de mim, ficava questionando: “Quem é essa Pandora que todo mundo fica falando que é a dona do hip-hop?”, que por alguma razão isso chegou aqui no Espírito Santo, não sei qual, “E aí, quem é essa Pandora? Não faz nenhum elemento”. Eles consideravam que eu não fazia nenhum elemento, só que eu já tinha feito todos os outros e sou do conhecimento. Eu fiz coisas no hip-hop que eu não sei se alguém já fez. Por exemplo, eu cantei na Galeria Olido. Ah, qualquer um pode ir lá e cantar na Galeria Olido. Duvido com a plateia que eu cantei, com o DJ que eu cantei. Eu cantei com o Bola 8, do Realidade Cruel. Ele foi o meu DJ. Mano! Realidade Cruel nem existe mais. O Bola 8 ainda é DJ, mas vocês podem tocar com ele? Pode. Mas vai tocar com ele na Galeria Olido? Com a nata do hip-hop de São Paulo na plateia? Não vai. Aí, eu falei: “Eu não preciso de mais nada. Eu já ganhei tudo que eu tinha que ganhar na minha vida”. Eu tinha ganhado, para mim, o Oscar no hip-hop, porque essas pessoas eram pessoas que eu conhecia, que eu abraçava, que eu beijava, que eu apertava a mão, que eu tirava foto, mas eu era amiga das pessoas que eu era fã. O Aliado G, por exemplo, do Face da Morte, eu dividia quarto com o Aliado G. Ele dormia na vontade e eu também, só que com a luz e a televisão ligada, o que não me deixava dormir, porque ele só dorme assim. Olha a intimidade! E nunca houve nenhum tipo de desrespeito, de gracinha, de... nunca! E eu gostava de falar, nossa, eu sou amiga do cara que eu sou fã, porque eu sou muito fã do Face da Morte, eu amo os meninos, o Aliado e o Edis, nossa, amo o Edis de paixão. Eu... nossa, eu não tenho como nomear, porque, sabe, de Mano Brown um dia estar numa reunião em Brasília e Mano Brown, quando eu fui falar, tentando falar, e ninguém deixava a gente falar, mulher para falar, é doido! Aí, Mano Brown falou: “Não, não, não, peraí, peraí, peraí, deixa ela falar que ela é ideológica”, porque sabe que a gente tem propósito ideológico no hip-hop, para a gente, o hip-hop é uma ideologia. E saber que um cara do naipe, do Mano Brown, me reconheceu dessa maneira, não porque ele é o Mano Brown, mas porque é uma pessoa importante para o hip-hop, não porque é o Mano Brown, qualquer um das pessoas. Tem muita gente importante no hip-hop que não é o Mano Brown ou que não é tão reconhecido, porque reconhecido, a gente sempre reconhece os nossos, mas tem muita gente que não está na mídia, nem nada disso, e que me vê assim, que são as pessoas que me convidam. Outro dia eu recebi um convite do GOG, que é um negócio do outro mundo. Do GOG falar: “Não, vamos chamar a Pandora para essa reunião”. Sabe, isso para mim, não é porque o GOG é um artista, mas porque o GOG está desde o começo e isso é que importa, porque também, não adianta aí, eu não vou citar o nome de alguém da nova escola, mas não adianta aí um Felipe me chamar para nada, porque: “Oi? Quem é você mesmo?”. Ah, só porque você está cantando e todo mundo te conhece? E daí? Qual é o seu propósito dentro do hip-hop? O que você sabe do hip-hop? Porque eu não acho que esse pessoal sabe do hip-hop. O que é o hip-hop? Não sabe, não. Sabe da história do hip-hop? Não. Não acho que sabe. Sabe que nós temos repente aqui no Brasil, e que algumas pessoas defendem que boa parte disso vem da América Latina e que só se unificou nos Estados Unidos? Nós podemos discutir isso com qualquer pessoa? Não. Eu defendo que nós temos cinco elementos. Tem gente que defende que tem 16, 17, algo assim. Ok, vamos conversar, mas a pessoa só pode falar isso, porque ela conhece a história e ela cria uma defesa, uma discussão, uma tese. Faz sentido, porque ela conhece. Agora, quem não sabe nada, vir discutir hip-hop, não dá, porque o hip-hop não é o que está acontecendo aqui agora. O hip-hop é o que aconteceu e acontece até hoje. O hip-hop não é o que acontece aqui agora, nem é o que vai acontecer. O que está dado, e aí falando cientificamente e do ponto de vista ancestral, de trajetória, hip-hop é o que está dado, é o que já foi feito e é uma construção Bom, bom, é isso. Mas tem gente que chega no hip-hop e vai fazer um eventinho e acha que é o primeiro. O hip-hop tem 50 anos no mundo e tem quase 50 no Brasil, porque, quando a gente começou, a gente não chamava de hip-hop, a gente não sabia nem que esse nome existia.
P/1 – O que o hip-hop te ensinou?
R – O hip-hop me ensinou a olhar no olho e falar olhando no olho, seja o que for. Eu aprendi coisas com a minha mãe, aprendi coisas com o Partido Político e o hip-hop, no final, é a minha ideologia, é meu partido e é muito de minha ancestralidade também, porque o hip-hop, quando nasce, ele pode nascer com um nome diferente, ele se desenvolveu, mas ele vem de coisas anteriores. Não foi assim… Pá. Pode parecer mágico, mas não foi mágico, é um processo. Hoje, o hip-hop é central na minha vida, assim como a minha espiritualidade, mas que é uma espiritualidade diferente das que as pessoas estão acostumadas a ver. O hip-hop é o meu propósito. Eu vivo muito do hip-hop, eu não faço só hip-hop, porque eu acho que o hip-hop tem que ser diverso, a gente não faz só hip-hop. Ninguém no hip-hop faz só o hip-hop ou faz só um elemento. A maioria faz mais do que um, e só de fazer mais do que um, já não faz só uma coisa, então faz duas. E eu, para além do hip-hop, eu faço outras coisas e sempre levando o hip-hop e trazendo o conhecimento para o hip-hop. Eu levo o hip-hop e trago o conhecimento. Isso foi uma coisa que eu aprendi com o Partido, porque a gente aprende do Partido a levar o Partido e não trazer nada para dentro do Partido, o que é uma bobagem, porque na verdade tinha que ser uma troca. Você leva o Partido para as pessoas e as pessoas se apropriam do Partido para defender suas pautas, mas não, a gente fica defendendo pauta de Partido. E é lógico que é pauta de alguém, mas não é de quem está na base dos Partidos, porque os problemas das pessoas na base do Partido são muito simples, são muito pequeno para as pessoas de cúpula de Partido se preocuparem. Você trata como uma política universalista, trata no atacado aí, só que somos pessoas individuais, cada um de nós é diferente do outro, nem o branco do olho da gente é igual. Enfim, então o hip-hop me ensina real a igualdade que tinha que ser. Tem que ser todo mundo igual, temos que reconhecer todas as pessoas que são do hip-hop, porque tem gente que quer ser reconhecido, chegou agora e já quer dizer que é do hip-hop. Não é, porque o hip-hop é o que você faz com o hip-hop, é o que você gera a partir do hip-hop. Se você está gerando para você, mano, você usa o hip-hop como ferramenta de trabalho, você canta, grava, ganha dinheiro com hip-hop, com break, com grafite, com tudo, massa. Mas ser do hip-hop é conhecer a história do hip-hop, é contribuir com o hip-hop, porque quem usa as ferramentas para ganhar dinheiro, o hip-hop está contribuindo com essa pessoa, e essa pessoa acha que está contribuindo com o hip-hop quando ela usa a ferramenta do hip-hop para ganhar dinheiro, e não tem problema não, mas não é. No hip-hop, você tem que estar envolvido, não é uma roupa, porque você vai em São Paulo hoje, todo mundo é hip-hop, todo mundo veste street, todo mundo veste hop-street, todo mundo que veste hop-street é hip-hop? Não. Todo mundo que é de cultura urbana é hip-hop? Não. O hip-hop é uma cultura urbana. Qualquer? Não é. É a maior de todas, é uma cultura global. Quantas culturas globais nós temos? Porque a gente pode falar assim, ano novo, nem carnaval, nem carnaval é uma cultura global, e olha que o carnaval brasileiro é conhecido no mundo inteiro. Tem carnaval em outros países? Tem, mas é... Não, o hip-hop tem cinco elementos, e esses cinco elementos são representados em todos os lugares onde o hip-hop está e ele extrapola, porque hoje tem gente do hip-hop no audiovisual, hoje tem uma mulher do hip-hop psicodramatista, que é uma coisa totalmente elitista. É lidar com a mente das pessoas, é uma técnica, pode ser terapêutica, é terapêutico. E tem uma pessoa do hip-hop, mas isso não é um acesso fácil. Não é como você ir num lugar e ter uma terapia. Então, hoje a gente faz coisas. Tem gente no audiovisual, tem gente do hip-hop em muitos lugares e continua sendo do hip-hop. Advogados, que hoje já não dançam mais, mas dançaram, mas eles deixaram de ser do hip-hop? Não, porque o tempo que eles passaram lá e o que eles se dedicaram e se dedicam, porque muita gente... Eu não danço mais, mas eu boto dinheiro, “Vou dar uma ajuda aqui financeira para isso”. Eu já obtive ajuda fazendo roupa pro hip-hop. Chamei uma pessoa do hip-hop que tinha uma marca de roupa. Falei assim: “Dá para você patrocinar aqui? Porque é só dez conto não dá para fazer nada. Você patrocina e manda construir essas roupas aqui, fazer essas roupas que são pra...”. Ok, o cara foi lá e fez isso. É assim que a gente faz. Eu sou de uma época que a gente fazia eventos sem um centavo, botando dinheiro no bolso. Isso é o hip-hop. É acreditar tanto que quando você faz, você faz como se você estivesse fazendo qualquer outra coisa da sua vida. Vai botar dinheiro? Vai botar dinheiro. Não é isso que você faz quando você precisa comprar uma geladeira, uma televisão? Preciso comprar uma televisão, então vou comprar uma televisão. Preciso fazer um evento de hip-hop? Vou fazer um evento de hip-hop. Era assim para gente e eu vou voltar a fazer dessa maneira, eu vou voltar a fazer dessa maneira, como era antigamente, porque, assim... “Ah, hoje é fácil ter edital”, nana nina não. A burocracia é tão grande para qualquer edital, tão grande, que as pessoas têm dificuldade de acessar o edital. Eu sinto dificuldade, porque eu sou neurodivergente e tem muita coisa ali que não faz sentido para mim e eu não vou criar um problema comigo mesmo, para me forçar a fazer uma coisa que não faz sentido para mim. Então, eu optei esse ano, por exemplo, de não participar de nenhum edital pelo Espírito Santo. A princípio, ainda está assim. Vamos ver até o dia 13. Isso não importa mais para outra coisa. Vamos lá.
P/1 – Você falou de criação de roupa pro hip-hop. Como que começou esse seu processo de fazer roupas?
R – Faz de novo a pergunta, que eu esqueci.
P/1 – Você falou da vestimenta do hip-hop. Como que foi a sua história junto a essa?
R – Então, quando eu entrei na faculdade, eu não pensava em alguma coisa para o hip-hop, não. Eu fui experimentar. Eu já tinha feito bastante outros períodos num outro momento, em outra faculdade de Moda, e eu fazia muita coisa ligada à sustentabilidade, porque eu não tinha dinheiro para comprar tecido. Então, eu desmontava tecidos inteiros para poder fazer linha, para fazer um crochê de uma peça que eu queria apresentar para um trabalho. Sempre foi muito complicado, mas isso me ensinou muito. Eu sou muito grata a isso. Quando eu fui para Faesa [Faculdades Integradas Espírito-Santenses], não foi diferente. Eu não tinha dinheiro para comprar tecido, não tinha dinheiro para comprar nada. Então, eu comecei pela coisa da sustentabilidade, o que que eu posso fazer com o que eu já tenho e tal, vamos para sustentabilidade. Já comecei a ter contato com isso, já sabia que tinha algumas pessoas fazendo algumas coisas. Fui me inteirar mais. Aí, o primeiro desfile que eu fiz foi no terceiro período. Eu já fiz um desfile de sustentabilidade. Fiz um monte de cute size e tal, de jeans, foi um negócio bem bacana. E aí, eu chamei um monte de gente do hip-hop para desfilar, e outras pessoas e tal. E aí, uma coisa leva a outra. Eu passei pelo processo de desenvolver uma coleção inteira, por exemplo, para o espectro LGBTQIAPN+, e a professora falou que eu era muito representativa, porque eu queria que as pessoas ornassem o arco-íris. Tanto que a marca se chamava Por Baixo do Arco-Íris. Por causa daquela brincadeira de passar por baixo do arco-íris e virar outra coisa. É do folclore. E aí, eu montei uma coleção inteira, 25 looks. A minha professora falou que eu era muito representativa. Isso é porque ela não sabia que o movimento ia ser como é hoje. Porque hoje as pessoas ostentam bandeiras, né? E a LGBT também. Eu adoro. Eu tenho vestidos da bandeira, né? Vestidos coloridos. É isso. Enfim, a gente estava atrasada. O tempo estava certo. Era para ser daquele jeito mesmo, bem representativo, e não era tão representativa assim, viu? Ela é uma pessoa maravilhosa. Eu amo ela e aprendi muito com ela, porque ela também falou que ela também foi chamada de representativa em outro momento da vida dela. Nesse processo, eu comecei a observar o hip-hop sem querer, observar com mais cuidado, porque meu marido era grafiteiro na época e aquilo era um problema para ele, a tinta, e respirava a tinta, e a tinta vai pro pulmão e cola os ventríloquos. Eu não sei o nome. A pleura colava. E aí, comecei a ver o pessoal do break se machucando, se ralando. Depois não podendo dançar. Muitas coisas acontecendo. Falei: “Cara, roupas funcionais, roupas ergonômicas, para o hip-hop”, porque até então eu estava muito ligada à cultura popular. Eu estava já estudando cultura popular, a vestimenta que se usa na cultura popular, nas manifestações, os folguedos, já estava já pensando nas florzonas, nas boneconas. Já estava pensando no dançarino de Ticumbi, já estava louca com isso, que é maravilhoso. E um dia, quem sabe, eu não consiga desenvolver. Hip-hop, minha praia. Aí, eu comecei a fazer outras coisas, bem antes da monografia do TCC [Trabalho de Conclusão de Curso], porque a faculdade exigiu os dois de mim. Servia para qualquer um, apenas um, para mim, teve que ser os dois. Enfim, foi ótimo. Eu trabalhei duas vezes mais ou três vezes mais, porque a maioria do pessoal em Moda resolve fazer TCC, faz um trabalho, faz umas peças, faz uma coleção. É orientado isso, não tem problema, ou monografia. Mas os dois? Por quê? Será que eles pedissem para tudo? Não, porque, para mim, eu precisava dar conta de dois, para provar que o que eu estava falando era científico? A manifestação cultural é lógico que é científica. Evolui, é lógico que é científico. Eu falo isso desde sempre. O hip-hop é um movimento social, cultural, tradicional e urbano. É um fenômeno global, literalmente, poucas coisas a gente pode dizer isso, que realmente seja. Além do hip-hop, o que é global? Fome, miséria, só mazela. Enfim, cara, é isso. Aí, fiz roupa para break, para mulher, para homem. Fiz roupa até para o rapper, para o MC, que aí não é uma roupa funcional. É uma roupa que deixa ele muito visível no palco. Então, é maximizada, oversize. Então, eu peguei na calça, eu peguei duas calças diferentes, juntei e fiz uma só. Por quê? Porque é assim mesmo, é um conceito. Não é que ninguém vai usar uma calça balão que cabe três pessoas numa perna. Não é isso. E ela é muito cargo, tinha bolsa atrás, na frente, para todo quanto é lado. É um conceito. Vamos extrapolar. Eu adoro extrapolar. Eu acho que você só pensa quando você consegue extrapolar, porque aí você começa a pensar em “Como eu chego na extrapolação?”. Aí, você desembola, mas se você pensar, eu vou pensar e dar um passo de cada vez, mas não vai demorar. Você tem que criar uma meta, criar uma perspectiva. Para você criar a expectativa. Aí, você vai, e eu sou assim, eu trabalho muito com extrapolação. Penso no que eu não consigo fazer e penso o que eu consigo fazer até chegar no que eu não consigo fazer. É assim que eu raciocino. Então, quando não faz sentido para mim, fica difícil, porque eu não consigo pensar onde é que eu vou chegar com aquilo. A minha dificuldade é essa. Coisas que não fazem sentido para ninguém, porque tem muita gente falando a mesma coisa que eu. Aonde você vai chegar com aquilo? É, o que você faz com o planeta onde? Aonde nós vamos chegar com o planeta assim? Aonde o hip-hop vai chegar? Então, hoje eu procuro ser uma pessoa que pensa fora da caixinha com o hip-hop, penso projetos fora da caixa com o hip-hop, convido pessoas para participar comigo agora. É isso que eu quero fazer com o hip-hop. Eu quero ajudar o hip-hop a evoluir. Eu ajudei até aqui a evoluir, claro, muita gente ajudou. E agora eu quero realmente pensar e executar projetos que façam o hip-hop dar alguns passos à frente. Então, estou muito voltada hoje para discutir educação do hip-hop, a pedagogia do hip-hop. O governo federal está criando agora um programa com o CKD, falando da escola nacional de hip-hop. Vai ter uma escola nacional de hip-hop, propriamente dita? Não é essa a lógica. É usar a pedagogia do hip-hop, nem são os elementos, é a pedagogia do hip-hop nas escolas para garantir que os estudantes não se evadam. Para eles terem mais gás, mais gosto, demorou. Nós do hip-hop fazemos isso há muito tempo. Desde o início dos anos 2000, que nós estamos na escola levando oficina, escola aberta, não sei o quê. Eu já dei aula dentro da universidade, para universitários, trazendo o hip-hop, e eles entenderam. O objetivo não é fazê-los hip-hopers, o objetivo é fazer com que eles conheçam o conceito do hip-hop, a pedagogia, e empreguem a pedagogia e algumas ferramentas do hip-hop para educar. É lógico que o hip-hop é científico. Olha onde é que nós estamos. Então, já era na época que eu falava e discutia essas coisas. Então, que bom que a faculdade exigiu de mim uma monografia e um TCC.
P/1 – Acho que vamos encerrar.
R – Ai, gente, eu lamento tanto.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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