Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Marilda Gouveia Damasceno
Entrevistado por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 05/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV008
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
P1 - Eu queria começar perguntando uma pergunta muito difícil, que é o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?
R - Marilda Gouveia Damasceno, eu nasci em 28/03/1961, e moro no Arraial de Angola, na Travessa do Gouveia, 53.
P1 - Nasceu aqui? Nesse lugar mesmo?
R - Nasci aqui mesmo.
P1 - Como é que foi? Foi de parteira?
R - Não, o meu não. Os que antecederam foram tudo de parteira, mas eu não.
P1 - Você nasceu no hospital daqui?
R - No Hospital
P1 - Entendi. E como é que foi a gestação? O seu dia de nascimento? Seus pais te contaram essa história?
R - Não sei não. Eu só sei que depois que eu nasci, eu era muito doentinha, sentia muita coisa, tudo que era doença pegava, que eu era muito fragilzinha. Mas sobrevivi.
P1 - E a senhora tem irmãos? Quantos eram quando a senhora nasceu?
R - Ao todo, eram dez irmãos. Agora só tem oito.
P1 - E como é que é você nessa escadinha de irmãos?
R - Eu sou a... que tem Antônia, Maria Joana, Benedita, Matilde, é a que morreu. Maristela também é a que morreu, tem Maria Lúcia, Marizete, Moisés, Marilda e Marcos.
P1 - E todos começam com MA, é isso?
R - Todos. Só Benedita que não, que nasceu no dia de São Benedito, né? E aí ficou Benedita.
P1 - E por que todo mundo tem esse nome assim, você sabe?
R - Eu acho que é da época mesmo. O pessoal quando punha as iniciais com C, com M, com D. Todo mundo era assim. O pessoal gostava.
P1 - E qual é o nome do seu pai e da sua mãe?
R - Meu pai é José Gouveia Damasceno, minha mãe era Cenira de Oliveira Damasceno.
P1 - Quer falar um pouquinho da família do seu pai? Como que eles são? Como eles eram? De onde eles vieram?
R - Eu não cheguei a ter contato com ninguém, dos meus pais. Não, não cheguei a conhecer não. A única que eu conheci, que a gente chamava de vovó, mas era tia dele. Antes, aqui a rua não era aberta, era fechada mais lá na frente. E a última casinha aqui da rua era dela. Aí dela eu lembro. Vó Amélia, a gente chamava ela de vó, mas era tia do meu pai.
P1 - E por que vocês não conhecem a família do seu pai?
R - A gente não teve contato, porque pai foi… Segundo minhas irmãs mais velhas falam, ele foi trocado por uma rapadura, porque as condições… Devido às condições, né? Aí trocaram ele por uma rapadura. E depois, um tempo depois, que parece que teve um resgate, alguém foi lá e resgatou ele.
P1 - E você sabe para quem que ele foi vendido por uma rapadura? Foi trocado?
R - Não sei. Não sei.
P1 - Ele nunca contou para vocês?
R - Não, é meio...
P1 - Ele ficou muito tempo com essa família?
R - É, ficou um tempo depois voltou. Alguém foi lá e pegou, alguém conhecido, né?
P1 - E me fala um pouquinho da família da sua mãe então? Essa você conhece mais?
R - Da família da minha mãe, eu cheguei a conhecer também, foi só os tios. Os tios, eram três tios, tio Zé Antônio, tio Gregório e tio Osmar. Mas também já todos falecidos também. Que a gente conhecia da família de mãe era só essa.
P1 - E a família da sua mãe veio de onde? Era daqui mesmo? Como é que era?
R - Eu acho que a minha mãe, ela trabalhava, a família dela tinha quem trabalhava em casa de... Nas casas, né? Aí ela ficava junto, mas ela andou trabalhando até em família no Rio de Janeiro, depois veio embora de novo. Ficava assim. Minha mãe era descendente de índio, é bonitinha demais.
P1 - A família inteira da sua mãe era descendente de índios, é isso?
R - Era, a avó dela era índia. A avó dela, que era índia.
P1 - E você sabe como é que ela conheceu, a sua avó conheceu seu avô, por acaso?
R - Não sei. Era tudo muito assim, solto, né? Tudo muito solto, então não tinha muita relação, não.
P1 - E fala um pouquinho mais da sua mãe e do seu pai. Nesse caso, você sabe como eles se conheceram? Eles contaram pra vocês?
R - Minha mãe e meu pai?
P1 - Isso.
R - Eu não lembro como foi que eles se conheceram. Porque eu acho que meu pai, ele trabalhava, ele começou a trabalhar na SUCAM. Ele trabalhava nas roças, “batendo” remédio, esses negócios. E eu acho que foi nessas viagens aí que ele conheceu ela.
P1 - O que é a SUCAM? Para quem não conhece.
R - Era tipo… Superintendência de Combate a alguma coisa, de bichos, sabe? Para evitar pestes, entendeu?
R2 - Combate a endemias
R - Endemias. Isso.
P1 - E o seu pai trabalhava nisso na época?
R - Na época era.
P1 - Entendi.
R - Depois que ele saiu da SUCAM, que aí ele foi trabalhar no D.E.R, começou a trabalhar no D.E.R. E com a família crescendo, aí ele foi e inventou de fazer pipoca. Aí ele mesmo construiu a primeira carrocinha dele, foi ele mesmo que fez, para ajudar na renda aqui da casa. Porque essa casa aqui não era assim não, era um quartinho. Era um quartinho dividido em três comodozinhos, lá no fundo. Aí ele foi construindo aos poucos, na frente. À medida que a família vai crescendo, vai exigindo, né? Mais espaço.
P1 - E como é que ele era conhecido na cidade, o seu pai?
R - Meu pai, pelo fato de ele começar a vender pipoca, ele foi o primeiro pipoqueiro da cidade, então era Zé Pipoqueiro. Se você chegasse lá no início da cidade, perguntasse por José Gouveia, ninguém conhecia. Mas se falasse Zé Pipoqueiro, aí você tinha informação de onde ele morava.
P1 - E quando a senhora nasceu, ele já era pipoqueiro já?
R - Já era pipoqueiro.
P1 - Ele só fazia isso? Ou ele trabalhava em outras coisas também?
R - Ele trabalhava no D.E.R, chegava do D.E.R às 17h. Ele já deixava a carrocinha prontinha, tomava o banho e ia vender. Tinha os pontos que ele ficava mais no centro da cidade.
P1 - E que pontos que ele ficava?
R - Ele ficava ali na esquina do sinaleiro da Rua Goiás. Naquela esquina, não tinha aquele prédio ali ainda, era só um vago, ele ficava ali. Ali onde é Sicoob, na Rua Goiás, ele ficava naquela esquina ali também. Era os pontos que ele tinha. E no mais, assim, as barraquinhas, ia pra barraquinha. Tinha o hipódromo, ele ia no Jóquei, ele vendia muita pipoca lá no domingo também.
P1 - E como é que era a barraquinha dele, a senhora se lembra? Ele desenhou a mão? Como é que ele fez?
R - A carroça?
P1 - A carrocinha dele.
R - Ele construiu de... Como é que chama?
P1 - Alumínio?
R - Não, esse material de guarda-roupa.
P1 - MDF, madeira?
R - É, essa madeira. Ele mesmo fez, pipoca, só. Na carroça.
P1 - E a senhora se lembra dele na rua, andando com a carroça, chamando os clientes, como é que era isso?
R - Lembro. Aliás, ele ia para os pontos, não existia pipoca igual, nós, os filhos, nós não conseguimos até hoje fazer pipoca igual a dele. O dia que ele não ia para a rua, para ficar lá no ponto, para fazer pipoca, o pessoal vinha aqui, aí ele fazia a pipoca e entregava pro pessoal. Aí ele também ia muito em festa de aniversário, que o pessoal adorava, gostava muito da pipoca dele, ele ia em festa de aniversário, para fazer pipoca.
P1 - Então, o pessoal, se ele não saísse na rua, as pessoas vinham?
R - Eles vinham atrás. Eles vinham atrás. E era uma pipoca diferenciada, realmente.
P1 - Como é que era o gosto? O cheiro? Você pode contar para a gente?
R - Ah, inexplicável. Muito boa, muito boa. Era uma pipoca... Você sentia o gosto de... Um gosto muito bom.
P1 - E ele colocava o que na pipoca?
R - Só óleo mesmo. Ele tinha um segredo, assim, que depois de um tempo, ele começou a colocar, fazer um molho. Ele fazia um molho de pimenta para colocar. Aí a pessoa comprava, quem quisesse, ele pingava o molho de pimenta. O pessoal adorava esse molho de pimenta dele. Ele que fazia, era segredo dele.
P1 - Ele não quis mostrar para ninguém?
R - Ele sempre fazia.
P1 - E ele vendia pipoca só salgada ou doce também?
R - Só salgada. Era só salgada. A não ser em festa de aniversário, que as pessoas, alguém pedisse, ele fazia. Mas o dele era só salgada.
P1 - Como é que ele chamava, o que ele falava na rua? Ou ele não falava nada?
R - Não, ele não falava. Ele só ia subindo. Geralmente ele fazia uma, duas, caçarolas de pipoca aqui. Aí, quando ele chegava no ponto, já não tinha pipoca mais. O pessoal ia comprando, à medida que... até ele chegar lá.
P1 - Sei.
R - Acho que chamava a atenção, né?
P1 - Era bonita a carroça dele?
R - A primeira não, era bem simplória. Tem até foto dela por aí. Era bem simplória. E o pessoal chegava, acho que o pessoal acertava mais porque, na época que teve Senhor Adriles Ulhoa, ele foi vereador, ele era vereador e resolveu homenagear pai em vida ainda. Aí, por isso que se chama aqui, Travessa do Gouveia, em homenagem ao meu pai.
P1 - O seu pai conhecia muita gente, eu imagino, por causa disso.
R - Ele conhecia muita gente. Ele era bem conhecido, graças a Deus.
P1 - Ele contou alguma história que ele viveu enquanto pipoqueiro, alguma coisa que ele viu, alguma história que ele trouxe da rua, você se lembra de algo assim?
R - Ah, a cada dia era um dia, né? Teve uma vez que ele foi vender pipoca e quase... Acho que derramou óleo e a carrocinha pegou fogo, ele queimou a blusa. Ainda bem que ele foi esperto e tirou logo.
P1 - Vamos falar um pouquinho da sua mãe agora, então. Como que ela era? O que ela fazia?
R - Ah, e ela ficava mais era em casa. Aí, também, ela sentiu a necessidade de ter um trocadinho, né? O que ela resolveu fazer? Pastel sírio. Aí, todo dia, 4h, ela levantava para poder fazer o pastel sírio, para dar prazo de pai pegar alguns pastéis. Porque ele entrava no D.E.R às 7h, e levar os pastéis para poder vender lá. E entregava nos barzinhos que tinha por aqui, os pastéis, ela gostava, era uma felicidade só.
P1 - E como é que ela aprendeu a fazer pastel sírio? Você sabe?
R - Eu não sei como é que ela aprendeu, onde que ela viu. Porque na época eu ainda era bem... Depois que eu fui começar a ajudar a fazer também. Mas porque, assim, para sair rápido, juntava todo mundo, os filhos, para poder fazer logo, para poder dar prazo de despachar.
P1 - E como é que é um pastel sírio? Eu não conheço.
R - Ele parece uma esfirra. Parece uma esfirra. Mas só que, assim, o pastel dela era verdadeiro, porque a gente achava muito pastel sírio por aí, era só aquele molho com batata, o dela era carne pura, carne moída pura. Muito gostoso.
P1 - Como é que fazia?
R - Ah, era só... Fazia a massa com farinha de trigo, fermento e fazia as bolinhas. Aí depois ia abrindo as bolinhas, ficava redondinha assim, punha carne e fritava. Era meio trabalhoso, mas valia a pena.
P1 - E fala um pouquinho das suas primeiras memórias. O que você lembra de mais antigo da sua vida?
R - De mais antigo? Eu não tenho muita lembrança de eu pequena. Eu não tenho muita lembrança. Aí, eu tenho lembrança assim, já começando escola, maiorzinha. Mas normal.
P1 - Quais são as primeiras lembranças dessa casa aqui, por exemplo, que você tem?
R - Foi pouco a pouco, que foi se fazendo essa casa. Aí a gente só via aumentando, aumentando. Era muito gratificante ver isso, pela batalha de pai, com as filhas estudando, e ele mantendo.
P1 - Ele não quis que vocês trabalhassem desde pequeno não, foi?
R - Não, ele preferia que a gente estudasse. Aí tem uns que foram mais adiante e tem uns que parou. [risos] Por exemplo… Eu fiquei só no segundo grau mesmo.
P1 - E a senhora estudou onde? A primeira escola que a senhora estudou?
R - A primeira escola foi a Escola, Grupo Escolar Doutor Sérgio Ulhoa. Era grupo escolar ainda, Doutor Sérgio Ulhoa. Estudei os 4 primeiros anos lá. Depois eu fui para a Escola Estadual Antônio Carlos, e terminei lá.
P1 - E como é que era você na escola?
R - Ah, eu tinha um pouco de dificuldade, no início. No início, né? Mas tomei só uma bomba, Graças a Deus! Tomei uma bomba em música. Música? [risos] Ai, é piada. Aí foi só também. O resto eu me saí bem.
P1 - E você ia para a escola como, na época?
R - A pé, eu ia sozinha e voltava.
P1 - Você estudava junto com suas irmãs, seu irmão? Seus irmãos?
R - Não, porque a diferença. Dava diferença. Minhas irmãs, elas estudavam muito aqui no Serafim, Escola do Serafim. Eu já fui lá pro Sérgio Ulhoa. Mas a maioria delas estudou foi aqui.
P1 - E tinha alguma matéria que você gostava mais ou não?
R - Tinha não. Tinha não. Essas matérias muito doidas, química, matemática, física, essas coisas. Eu não gostava muito não. Muito número.
P1 - E teve algum professor ou professora que te marcou na escola?
R - Eu tive uma professora, a dona Violeta Macêdo, que foi do segundo ano aqui no Sérgio Ulhoa. Era uma gracinha, era muito carinhosa, muito atenciosa, preocupada com a gente em aprender, né? Eu gostava muito dela.
P1 - E quando você era pequena, você tinha algum sonho ter alguma profissão X, Y? O que você sonhava nessa época, você se lembra?
R - Eu acho que eu não tinha essa expectativa não, ainda mais aqui que assim, chegava certo ponto, Magistério, todas tinham que fazer magistério, para pai. Aí algumas ainda fizeram magistério e científico. Que o pessoal chamava curso científico. Aí estudava à tarde magistério e à noite fazia o científico. Mas aqui todo mundo fez magistério, que era a esperança do meu pai era todo mundo ser professor. Pelo menos era uma profissão. Aí todo mundo fez magistério. Mas eu não segui adiante não.
P1 - Você não fez magistério, no caso?
R - Fiz magistério, mas não só não exerci a profissão.
P1 - E me conta como era Paracatu na sua infância. É diferente ou não? Como é que era?
R - Bem diferente. Bem diferente. Muito, muito diferente. Muita pedra. Aqui, essa ladeira aqui, tinha era uma pontizinha, um pauzinho dessa largura assim, para a gente poder atravessar, para poder, no caso ir para o lado do Santana. Nossa, eu tinha tanto medo de atravessar aquilo ali. Porque como passa o Mestre Campos aqui, na época, era muita água que tinha, que descia. Aí eu tinha medo de atravessar ali, por causa de cair na água. Não sabia nadar. Até hoje não sei também.
P1 - E o centro era como?
R - O centro era, um bocado ainda era cascalho, aquele cascalhão grosso, depois foi passando pro bloquetes, né? Ai do bloquete que depois veio jogar o asfalto por cima dele. Ainda existem uns bloquetinhos aí, mas…
P1 - E vocês brincavam muito? Vocês brincavam do quê nessa época?
R - A gente brincava de Pique Esconde, aqui na rua, queimada. Mas era tudo no seu horário. A hora em que pai punha o dedo na boca assim, e fazia “Fiu”. Aí acabou, vinha todo mundo pra dentro. E aqui em casa, no fundo, também tinha pé de manga, pé de cajú, pé de abacate. A gente brincava muito subindo nos pés para pegar fruta.
P1 - E vocês ajudavam em casa também, Dona Marilda?
R - Ajudava, ajudava.
P1 - O que a senhora tinha que fazer?
R - A gente tinha que fazer de tudo. Aqui em casa era assim… Depois que crescia, depois que já começava a dar conta de fazer as coisas. Aí cada um tinha sua semana. Uma semana, por exemplo, uma semana eu lavava a roupa, na outra semana eu arrumava a casa, na outra semana eu passava, na outra cozinhava. Ia revezando por todo mundo. Então ninguém deixava de aprender, porque cada um fazia uma semana uma coisa. Foi bom. Eu só não gostava de passar roupa, era horrível.
P1 - Por quê?
R - Ai, é muito cansativo. Muito... Não, não gostava não.
P1 - O ferro era como nessa época?
R - No início era de brasa, ferro de brasa. Porque aqui tinha fogão de lenha, ainda bem que aqui tinha um fogão de lenha, aí pegava brasa do fogão e passava roupa. Um ferro pesado, né? É muito pesado o ferro de brasa. Mas depois foi melhorando.
P1 - E você estava sempre com seus irmãos, ou não? Vocês brigavam muito? Como é que era a relação?
R - Engraçado, porque aqui brigou, tinha que ficar abraçado quase uma hora. Era abraçado até fazer às… Para não repetir. E a gente obedecia. Antigamente existia obediência. Mas aí… A gente não ficava brigando muito não. Não era de muita briga não. Graças a Deus, era bem unido. Mas brigou, tinha que ficar abraçado.
P1 - E quem que era mais rígido na sua casa, seu pai ou sua mãe?
R - Pai. Pai era mais rígido. Assim, às vezes ele deixava fazer as coisas assim, mas tudo dentro dos padrões, na hora certinha. Tudo era assim. Pedia para sair. “Tal hora tem que estar aqui.” Aí tinha que estar na hora certa que ele marcou.
P1 - E quando você nasceu, já tinha energia elétrica aqui na sua casa?
R - Já. Já. Já tinha.
P1 - Vocês tinham TV, rádio, como é que era?
R - Olha, eu lembro, mais era rádio. Tudo se ouvia no rádio. Muito depois, a primeira Copa, minhas irmãs ainda foram assistir no vizinho ainda. Bem depois que comprou televisão. Mas tinha horário também para poder assistir televisão.
P1 - Que horário era?
R - Era só à tarde, depois que já estivesse com tudo prontinho, já tivesse estudado, feito o dever, aí fazia. Aí podia assistir televisão.
P1 - E vocês, ouviam o quê no rádio, você se lembra?
R - Mãe gostava muito de deixar na Rádio Aparecida. Minha mãe e meu pai sempre foram muito religiosos.
P1 - Só fazer uma pausa. Acho que tem algum telefone tocando aqui. Não é?
R - Será que é o meu?
P1 - Aqui. É isso mesmo?
R - Já parou. Já parou. Deixa eu desligar ele. Posso?
P1 - Pode. Eu desliguei aqui. Mas pode falar de novo. Você tá falando que a sua mãe ouvia Rádio Aparecida, é isso?
R - Era. Ela era sócia, aí ela só ficava mais ouvindo a Rádio Aparecida.
P1 - O que tocava nessa rádio?
R - Ah, mas era coisa de música de igreja, essas coisas assim. Mais era com relação a Igreja, mais noticiário. Aí tinha também.
P1 - E o seu pai, ouvia o quê?
R - Papai, ele tinha um radinho que ficava na carrocinha de pipoca, dele ouvir as notícias dele, ouvir os futebol. Os futebol ele ouvia pelo rádio, porque durante o dia ele trabalhava, aí quando ele ia para a pipoca, é que ele usava o radinho, que já ficava na carrocinha.
P1 - E vocês ouviam música também no rádio ou não?
R - Música era muito difícil, era muito difícil. Depois ele comprou uma radiola assim, pequenininha, comprou uns discos, aqueles discos de música antiga, de valsa. Ficava ouvindo.
P1 - E vocês cantavam dentro de casa, fazia festa ou não? Como é que era?
R - Ah, as festas eram só assim, final de ano, Natal, Ano Novo, que a gente reunia todo mundo, sempre reuniu todo mundo. E no mais, aniversário era só entre nós mesmos, um parabenzinho e pronto.
P1 - Tem alguma história da sua infância, da sua adolescência que te marcou, que você pensa até hoje assim?
R - Ah! Não, não tem não. Tem não.
P1 - Bem, depois você pode me contar, se você lembrar de alguma, tá? Mas fala um pouquinho mais da sua família. Como é que é essa história da Tapuiada? Desde criança você vê isso acontecer ou não?
R - Não, porque depois… A Tapuiada ele teve vários resgates, né? Aí, em 1985, foi resgatada por Darin, Luiz Dario, de Santana, depois acabou de novo. Aí, quando foi 1995, tornou a ser resgatada. Acabou de novo. Aí, quando foi em 2004, tinha um menino, o Cláudio, filho da dona Maria Augusta, que faleceu também. A mãe dele, que cuidava da Tapuiada. Aí, um dia a gente conversando, ele: “Vamos resgatar?” Falei: “Vamos!” E aí, a gente tentou. Ainda bem que a gente tentou. Ainda ficou uns quatro, cinco anos. Mas é muito difícil, porque é muita coisa, o gasto é muito grande. E a gente tentou reaproveitar as roupas que ainda tinha. E é muita pena, pena cara. E aí, a gente parou com esse resgate aí. Parou. Tanto é que ficou 20 anos parada, até hoje. Agora que a gente está tentando de novo. Mas na época que a gente resgatou foi muito bom, a gente apresentou em escolas, nós apresentamos… Teve a novena de Nossa Senhora do Amparo, e aí o padre resolveu fazer a novena. Então a gente abriu a novena com a apresentação da Tapuiada, e fechou a novena com a apresentação da Tapuiada. Foi muito bonito, tinha 22 pessoas. Tinha 44 pessoas, 22 pessoas de cada lado. Foi muito bonito esse resgate.
P1 - Mas assim, quando você era pequena, você não viu isso acontecer, é isso?
R - Não, não, não. Quando eu era pequena, não. Porque quando eu lembro de pai aqui, sentado aqui com o pessoal mais antigo, e deles tentando relembrar, eu já estava bem mais… Eu já tinha o que? Quase 20 anos, 18 anos.
P1 - Como é que foi esse dia? Vamos começar por aí, contando. Você estava em casa, e aí, o que aconteceu?
R - Assim, como a participação era só de homens, então a gente ficava mais recuada. Mas eles reuniam aqui, punham as cadeiras em círculo assim, e cada um ia dando suas lembranças, e ele anotando. E assim, a gente quando é jovem a gente não está muito preocupado com muita coisa, né? Então, para mim estava normal, eu não sabia o valor, né? Não sabia o valor de tudo isso que eles estavam fazendo ali.
P1 - Pode?
P2 - Assim a senhora falou da dança, que viu eles reunidos para conversarem e relembrar.
R - Relembrar.
P2 - Como essa dança funcionava? Porque você falou que da última vez que aconteceu, 22 de cada lado, totalizando 44 pessoas. E como essa dança funciona e qual é o intuito dela, a intenção dela transmitir para o observador?
R - A Tapuiada, ela é porque existiam os índios aqui. E com isso vieram os negros, trazidos de Portugal para cá. Só que os índios não aceitaram bem a ideia, porque os negros estavam vindo para tomar posse de território, por causa de ouro e tudo mais. Então, eles começaram a ter combate. Então, a Tapuiada retrata todos os acontecimentos. Tem o combate, tem a apresentação que depois os índios pedem perdão para os negros. Aí na última dança tem o Bangolê, que é onde eles fazem as pazes. Então é contando a história de quando eles começaram a combater até fazer as pazes. É uma dança muito bonita, muito bonita.
P1 - Depois a gente queria perguntar mais detalhes ainda sobre cada ponto, que até está mostrando aqui, né? Mas me conta uma coisa, esses mais antigos que vieram na sua casa, com seu pai, a senhora conhecia eles ou nunca tinha visto?
R - Conhecia porque alguns eram compadres, uns participantes eram compadres e tinham o costume de vim aqui, aí a gente via. Mas outros eram já só os moradores do Santana mesmo, conhecido de pai, que todos já foram dançarinos. Todos eles já tinham sido dançarinos.
P1 - E você não fazia ideia disso?
R - Não,
P1 - Os seus irmãos mais velhos, será que eles já tinham visto naquela época?
R - Não, não. Porque assim, as minhas irmãs formaram no segundo grau, foram estudar em Brasília, foi fazer vestibular. Foi estudar em Brasília. As outras, umas casaram. Então ficou bem restrito o número aqui. E a gente lembra, eu lembro. Eu tenho essa memória do pessoal todo dia ali, até relembrar tudo. Pena que a gente pegou só… Porque assim, eu, no caso, eu peguei só a dança. Então, a história mesmo ficou para trás. Ee aí, muitos foram morrendo. Que dizer, se a gente tivesse outra mente, ia entrevistar para poder tentar entender e saber direito de tudo.
P1 - Agora, me conta uma coisa, quando você começou a dançar, o seu pai começou, esse primeiro resgate, que a senhora falou que foi 1985, mais ou menos, né?
R - Esse resgate aí foi Luiz Dario que fez.
P1 - Vocês estavam envolvidos nele?
R - Não, não estava não.
P1 - Mas onde é que foi esse resgate? Você chegou a ver essa dança naquela época?
R - Eles apresentavam. Tanto é que na época, teve um concurso de dança, danças folclóricas e dança cultural, em Belo Horizonte. A Tapuiada foi apresentada lá e ganhou o primeiro lugar. E é uma coisa assim muito…
P1 - Mas você chegou a ver nessa época?
R - Não, eu não fui não. Eu ainda era bem mais nova.
P1 - E quem que era Luiz Dario? É isso? E quem era ele?
R - Bom, na realidade ele é primo, é Gouvea Damasceno também. Ele foi famoso, foi jogar no Palmeiras. Não sei se chegou a jogar no Flamengo, Santos. Ele foi um jogador muito bom. Jogava bem.
P1 - Dario Alegria é seu parente?
R - Dario Alegria.
P1 - Ah, entendi! Então ele fez essa primeira...
R - É, ele foi.
P1 - E quando foi que você começou a dançar? Como é que foi isso?
R - E aí, a gente teve essa conversa. “Vamos resgatar?” “Vamos.” “Tá.” E nisso meu pai faleceu. Meu pai faleceu em 2001. Quando foi em 2002, minha irmã resolveu fazer um seminário José Pipoqueiro, na Câmara. Aí ela falou: “Uai, vamos apresentar.” Foi a primeira vez que a gente teve apresentação, na porta da Câmara, aqui, no dia do seminário, deste seminário. O pessoal achou a coisa mais linda do mundo, tinha muita gente de fora. Daí a gente apresentou em escola, apresentamos no Sesc, na faculdade, apresentamos em Unaí. Aí depois a gente foi, apresentou no Congresso. Com toda a escassez, mas a gente estava… Mas chegou num ponto que foi ficando muito difícil, porque como as roupas… Essas aqui ainda levam cola, alguma cola, mas é mais costurada. E aqui é só cola, então, a cada apresentação você tem que estar reformando, porque perde pena, arranca trem. Então você tem que estar reformando. Aí vai ficando muito difícil. Se você não tiver uma ajuda, não...
P1 - Agora, em 2001, que foi essa vez. Quem organizou? Quem que sabia fazer as roupas?
R - A mãe do Claudinho, com um pouquinho de roupa que ela tinha. Aí a gente juntou, conseguiu arrumar umas penas. Tem uma história até que, meu Deus! Uma amiga nossa, que fazia parte com a gente, ela estava indo com Dom Benedito para uma missa numa roça. Quando eles estavam passando, viram um bicho morto. “Para Bene, para Bene, para aí, é uma ema.” Pois ela desceu, arrancou as penas da Ema e trouxe para nós, para poder fazer as roupas. Eu falei: “Meu Deus do céu!” Foi muito bom. Falei, gente, a gente faz tanta coisa. Meu Deus! Para poder tentar.
P1 - Qual que é o nome, é Claudinho, é isso?
R - Claudinho.
P1 - Esse Claudinho, ele ensinou tudo para vocês, é isso? A roupa, a dança?
R - É porque ele também dançou, e ele ajudava a mãe dele. E na época do Dario também ele participava. E aí, ele que ensaiava os meninos, tudo, sabe? E a gente, eu e a mãe dele, ficava por conta de manter as roupas, de fazer a roupa. E aí, com o falecimento da mãe dele. Mas ele… Ele está morando em Brasília agora, mas sempre quando tem ensaio, quando tinha ensaio, aí ele vinha para poder dar uma mão. Porque para relembrar tudo assim, a cabecinha da gente fica meio... Aí, ele ajudava Camila a ensaiar os meninos.
P1 - E de onde que vem essa Tapuiada no sangue do teu pai? E só do seu pai, ou da sua mãe também?
R - Não, tadinha de mãe. Mãe não dava notícia de muita coisa assim, não.
P1 - Mas seu pai sim?
R - Sim.
P1 - O que ele falava para você?
R - Eu via ele só comentando com os amigos, pra gente mesmo, ele não... Que tinha separação, né? Eles achavam que a gente não precisava saber porque não participava, era só homem. Então não era interesse nosso, aí…
P1 - Nem pros seus irmãos ele falou isso?
R - Não, não.
P1 - Entendi. Agora me conta como é que foi a preparação para essa primeira apresentação? Como é que foi aprender a fazer essas roupas, essas máscaras?
R - Tudo era antigo. Do antigo, da apresentação antiga. Só que a gente estava tentando, era costurando fundo de macacão. Eu peguei os macacões tudo e tingi, até duas e meia da manhã eu tingindo macacão para poder ficar com uma cara mais apresentável, para os meninos poder vestir. Tingi tudo. E a gente foi tentando. Desmanchava uma saia para poder tentar encher outra. Era assim, aproveitando. E nessa época, a gente ainda conseguiu uma ajudazinha, que foi o que a gente… Porque os meninos estavam apresentando descalços. E eles usam moleca. Aí, a gente conseguiu uma ajuda, e comprou umas molecas para eles poderem usar. Mas as roupas eram tudo antiga, tudo antiga, tudo antiga. Era um buraco, e a gente tentando costurar, para poder... Mesmo assim ainda escapulia um. Falava: “Gente, olha lá, o menino tá dançando, ó buraco lá. Ainda ficava uns buraquinhos.
P1 - E como é que são essas roupas? Depois você fez do zero algumas, eu imagino?
R - É agora, que a gente conversou, foi procurado pelo secretário e ele falou da possibilidade do resgate, que era para a gente fazer um projeto e tal, para poder conseguir. E aí, nós fizemos o projeto, fomos aprovados, e compramos. Agora está tudo novinho. Tudo novinho. Graças a Deus. Assim, as roupas dos Congos estão todas prontas, agora só falta completar as dos índios, também quero. São 20 roupas. Ainda tem só um pouco, ainda tem que fazer mais um projeto aí pra poder resgatar mais.
P1 - E me fala um pouco como é que são essas roupas, Dona Marilda? Como é que é a roupa? Tem diferença entre elas? Por que tem essas cores? Se você puder explicar pra gente.
R - Ó, a dos índios, a diferença é que a dos índios, o Cacique, a Caciquinha, a Cacica e Caciquinha, usam penas brancas, as roupas são de penas brancas. O Tapuio Mestre, as penas são marrons. Devia ter pego, para poder mostrar. E as outras são tudo penas cinza mesmo. E as roupas dos Congos, porque os Congos, eles gostavam de muito brilho, muito brilho, e por isso esses espelhos, essas coisas douradas, tudo para dar o realce. E assim, tem os Congos que usam máscara e têm os Congos guias, que são os que tocam os tambores, que o rosto é pintado, o resto usa máscara. Os guias Tapuio também são de rosto pintado, o resto usa máscara.
P1 - E por que usa máscara, a senhora sabe?
R - Ah, eu acho que é questão mesmo de não se identificar, né? Não se identificar.
P1 - E essa máscara que tá aqui aparecendo, é a máscara de quem?
R - Essa aqui é do Congo.
P1 - Do Congo?
R - É, porque a dos índios o rosto é marrom mesmo. É a máscara marrom, pra ficar mais da cor do macacão. Eles usam um macacão alaranjado para dizer, pra ficar mais próximo da pele.
P1 - E quais são os instrumentos que tem? Que está vendo essas lanças, esses arcos.
R - As flechas, têm as flechas que os índios usam, têm a flecha grande e tem as flechas pequenas que são dos espias. Os espias são os filhos do cacique, do casal, que tem o Cacique, a Cacica e a Cacinha, e os Espias, que são os menorzinhos. E tem os Congos, eles usam uma espada de madeira, sabe? Eu esqueci de pegar. Eles usam uma espada. E os instrumentos que são usados para tocar a dança, são os tambores e a sanfona. São quatro tambores de cada lado. São quatro tambores para os guias de Congo e quatro tambores para os guias de Tapuio.
P1 - E uma sanfona?
R - E uma sanfona. E no mais, tem o pessoal do coral, que é o pessoal que canta, são quatro que cantam.
P1 - E no coral, eles estão vestidos também, fantasiados?
R - Não.
P1 - Você quer perguntar, Ana?
P2 - Queria.
P2 - Eu queria que você falasse sobre a formação, de quantos são? Os caciques são os mais poderosos? Começa com os caciques? Tipo assim, de patamar, quem vem, quantos Caciques, Caciquinhos? A quantidade de cada, sabe? Do início até o último.
R - São os quatro guias, depois dos guias, aí vem o Cacique, vem a Cacica, a Caciquinha, e vem os outros índios. E depois dos outros índios vêm os quatro Espias.
P1 - E do lado dos Congos?
R - Do Congo têm os quatro, os quatro guias de Congo e o resto é igual. Tudo igual.
P1 - E por que se chama guia, hein, Marilda?
R - Porque são os que tocam, eles que puxam, eles que puxam a dança. Eles erraram, o resto tudo erra.
P1 - E você me fala um pouquinho como é essa dança? Como é que ela funciona, se tem batidas diferentes, como é que é?
R - Não, é a mesma batida, mesmo ritmo.
P2 - Tem coreografias diferentes, ou é uma coreografia?
R - Não, é igual, como está contando uma história, aí tem a introdução, que faz, aí depois da introdução já vem a dança do combate, depois vem a dança do perdão. Aí depois da dança do perdão, tem a apresentação do Cacique, tem a apresentação da Cacica, e apresentação do Espia, que eles correm apresentando lá, e fazendo verso. E depois dessas apresentações vem a dança da paz, que é o Bangolê. Bangolê é a última coisa.
P2 - E todos dançam ou cada parte um dança? Ou todos fazem as danças?
R - Todos dançam, todos dançam. Todos dançam. Tem a dança do louvor. A dança do louvor que é só os índios que dançam, essa dança do louvor. O Cacique, com a Cacica, e a Caciquinha, e os Espiazinhos. Só essa dança que é só eles separados.
P2 - Seu pai era o quê?
R - Na época ele era espia. Muito tempo, né? Era espia.
P3 - Eu vi que a senhora ia pegar o instrumento, a senhora ia mostrar o toque pra gente, como que é?
R - Mas tá ruim o som.
P1 - Mas pode tocar, senão não vai registrar. Se você puder, ruim ou não, é melhor tocar.
P2 - A senhora falou que tinha diferença entre os…
R - Sim, as baquetas. Essas aqui são dos Congos e essas aqui são dos Índios.
P1 - Se eu pedir só para você, Dona Marilda, mostrar bem na altura do seu rosto, porque aqui embaixo não tá pegando. Isso.
R - Essa aqui é dos índios. Só que essas aqui não foram reformadas ainda não. Por isso que tá feia desse jeito. Essa aqui é dos Congos e essa aqui é a dos índios.
P1 - Legal.
R - Tá horrível. Fica rouco. [Canta] “Gente toda venha ver está grande Paracatu. Gente toda venha ver está grande Paracatu. Como se forma uma dança, uma dança de Cumbe Caramuru, de Cumbe Caramuru.” Aí tem o que os Tapuio falam, os Congos repetem, entendeu? Aí vem o acelerado. [Canta] “Gente toda venha ver está grande Paracatu, Paracatu. Como se forma uma dança de Cumbe Caramuru, Caramuru. Oiá, oiá, Cumbe Pena, Coiá, Coiá. Coiá.”
P2 - A Senhora canta também… Tem aquelas partes que a Senhora falou da introdução… Cada um canta uma parte?
R - Essa é a introdução, que vem falando, convidando o povo pra poder assistir. E tem o… [Canta] “Lelê do olê olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olá, faça grande pinta de animação. Todo mundo festeja com prazer no coração, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê, olê,” Vai contando a história aí. Essa dança é muito bonita porque ele.. como tem as penas do Congos e têm o Cocar dos índios. Então, no Bangolê, olê, olê, olê, olê Bangolê, Aí se encontra, encontra os penachos. Muito bonito.
P1 - Esse encontro dos penachos simboliza o quê?
R - Encontra as cabeças assim. Aí fica uma dança bonita.
P1 - É a paz, né?
R - É a dança da paz.
P1 - Qual que é… Assim, difícil essa pergunta, eu imagino. Mas tem algum canto que você prefere, que você gosta mais na Tapuiada? Que você acha mais bonito?
R - Ah, eu gosto do Bangolê. Eu gosto do Bangolê.
P1 - E dura mais ou menos quanto tempo uma apresentação até o final, assim?
R - A apresentação toda, ela dá mais ou menos uns 45 minutos, 40, 45 minutos. Então, mas só que a gente assim, dependendo do local, do tempo que tem para poder se apresentar, então a gente corta alguns versos e diminui o tempo.
P1 - E vocês fazem a dança em algum período específico do ano? Como é que é isso aí?
R - É a questão de convites, também. Mas a dança, ela é apresentada no dia 8 de setembro, que é o dia de Nossa Senhora do Amparo, que é o santo de devoção da Tapuiada. Esse dia tem apresentação, sem falta. E no mais, assim, a gente apresenta, às vezes as pessoas chamam, convidam para poder fazer, tem alguma festa com relação, que tem a ver, aí chama para a gente poder fazer a apresentação.
P1 - E por que Nossa Senhora do Amparo, hein, Dona Marilda?
R - Não sei porque. Esse louvor veio de Portugal, essa louvação a Nossa Senhora do Amparo, veio de Portugal para a Tapuiada.
P1 - Coisa a se pesquisar.
R - É. É o que eu falo, da Tapuiada fala-se muito pouco, né? Fala muito pouco. O que o Oliveira Melo fala, tem o Olímpio Gonzaga também, mas são poucas coisas.
P1 - E me conta uma coisa, como é que está a formação da Tapuiada hoje? Vocês estão tendo desafios ou não? Como é que está?
R - Muitos desafios. Muitos desafios porque a gente não está encontrando os dançarinos, tá difícil de resgatar meninos para dançar. Como a dança é feita só de homens, então tá muito difícil. A gente tá indo nas escolas, tá chamando, eles dão o nome, mas não comparecem. A gente explica. “Não precisa ter vergonha, porque quem não estiver de máscara, vai estar com o rosto pintado, então ninguém vai reconhecer ninguém. Mas mesmo assim… Ainda tem a questão assim, muitas vezes o menino até dá o nome, quando chega em casa, que vai falar com a mãe e o pai, os pais são evangélicos. Evangélicos não vão louvar Nossa Senhora, entendeu? Ainda tem essa dificuldade.
P1 - E porque é só homem, você sabe?
R - Eu acho que é questão de… Sei lá! Aquela coisa de que mulher tem que ficar em casa, cuidando da casa, dos filhos e tal. Só os homens participam.
P1 - Mas as mulheres nem cantam, nem tocam também não?
R - Bom, agora, devido ao fato da gente não tá encontrando sanfoneiro. Encontra, alias, sanfoneiro tem. Mas assim, a agenda deles é muito cheia. E eles tocam muito assim, forró, esses negócios para eles é melhor. E aí, com o negócio de não está encontrando sanfoneiro, eu e Camila resolvemos entrar no coro de sanfona. E vai ter que ser nós pra tocar. Vai ter que ser.
P2 - Na Tapuiada, antigamente, a senhora sabe se era família ou era assim, chamando mesmo? Quando surgiu a Tapuiada dentro de Paracatu, era uma família que dançava?
R - Não, não era. Não era família não.
P2 - Se montou um grupo?
R - Montou um grupo. Aí convidavam um dali, um daqui. Era assim.
P1 - Era exatamente isso que eu ia pergunta, viu Janaina. Isso você acha que é uma dificuldade?
R - É, eu acho que a partir do momento que é família, então vai passando, né? Então fica mais fácil, fica mais fácil. Aí, quando você tem que sair num canto atrás de outro para chamar, é mais complicado.
P1 - Agora você me falou que a família do Dario era daqui de perto, né? Estamos no bairro do Santana.
R - Santana.
P1 - Do que você já nessa caminhada, você, sua filha, sua família tem visto, a Tapuiada não estava aqui no bairro de Santana? Ou têm outros bairros aqui de Paracatu que tem também?
R - Não. Ela é só por aqui mesmo. Eu acho que devido ao fato de que aqui era muito índio. Tinha muito índio para cá, e era onde eles tiravam ouro também. E com a chegada dos Congo, bandeirantes, tudo veio para cá. A maioria foi pra cá, né? São Domingos também teve, né? Mas muitos vieram pra cá.
P1 - Inclusive, me conta essa história que você me contou, você contou pra gente antes. Que aqui, às vezes, você via índio andando na rua, correndo atrás de que?
R - É, tinha o negócio da rapina, eles chamavam de rapina, que os índios entravam, os índios saíam para pegar galinha, ovo, sabe? Eles entravam nos quintais para poder pegar. E assustavam as pessoas. Eu lembro de Seu Etelvino contar que eles passavam… Ele falando assim: “Eu lembro que eles passavam por a gente, ficavam “ó, ó, ó”. Assustando mesmo, sabe? Para ninguém achar ruim com eles de nada, provavelmente.
P1 - Você chegou a ver algum indígena aqui na região?
R - Não. Não cheguei. Cheguei não.
P1 - Entendi. Então daqui a pouco vão ter que as mulheres dançarem, é isso?
R - É, eu tô achando que se a gente não conseguir, se a gente não conseguir, porque o prazo tá pouco, nós só temos dois meses, para poder fazer ensaio, tudo. Se não conseguir até final do mês, aí nós vamos passar para resgatar meninas. E é muita menina querendo, muita menina querendo.
P1 - Cacique e Caciquinha são homens também, é isso?
R - São homens. É assim, a partir do momento que a gente colocar mulher, vai ter que ser só mulher, porque não vai dar para poder ficar misturando, né? Ou é só homem ou só mulher.
P1 - Por que você acha que não é bom misturar?
R - Ah, acho que até questão de arrumação. Porque a gente para vestir, para poder apresentar. Ou é só mulher, ou é só homem.
P1 - E me conta uma coisa, como é a preparação, como é que é os dias que precedem uma apresentação? Como é que é o dia a dia? É corrido? Como é que é?
R - Nervosismo, né? Muito nervosismo. Mas no final dá tudo certo. É muita coisa para poder vestir, tanto faz os Tapuias como os Congos, é muita coisinha, você não pode esquecer nada. Até tem um coraçãozinho, que tipo um espelho, só que é de lantejoula, a gente não põe espelho, porque... Até esse coraçãozinho é onde retrata onde os Congos amolavam a espada. Até esse detalhezinho não pode ficar sem. É muita coisinha, muita coisinha. Não é fácil. Não é fácil. Mas a gente consegue. Nós vamos sair.
P1 - Mas me conta, conta pra gente, assim, vai ter uma apresentação, quantos dias vocês já estão fazendo roupa? Como é que é o dia a dia da preparação?
R - Aí é só conferir, né? Só conferir, porque as roupas já estão lá todas prontinhas. É só conferir se tá tudo, tudo... Cada cabide se está com todas as roupas, os tecidos, têm colar. É só para conferir. Uns dias antes é só para conferir mesmo.
P1 - E me fala dos detalhes das roupas, então. Tem algum detalhe que você gosta mais, que você ache mais curioso? Conta para a gente.
R - A roupa é toda linda, né? Todas elas são muito lindas! A hora que tá no corpo, então, fica muito bonito, gente. Muito bonita. É muito bonito.
P1 - Os colares vocês fazem também?
R - Não, são correntes, né? As correntes. Que dizer a gente compra as correntes e monta o colar, né?
P1 - Quem usa as correntes?
R - Os Congos usam essas correntes. Agora os Tapuias eles usam só semente, olho de cabra, são só sementes, os cordões deles.
P1 - E o que significa esse símbolo dos Congos?
R - Não... É...
P1 - É do que comprou?
R - É o que achou.
P1 - Entendi, a questão é ter um brilho.
R - É brilho, o negócio é brilho. E os índios ainda têm… além do macacão, tem a peruca. Tem a peruca, o cabelo mais longo que coloca, e depois coloca a testeira.
P1 - Entendi. E como é que vocês fazem as máscaras?
R - Essas máscaras, a gente já comprou pronta. A gente só modelou elas, para poder ficar assim. Porque elas vêm de nariz fininho, a boca vem “coisada”, aí tem que abrir.
P1 - Mas elas são feitas de quê, Dona Marilda?
R - Papel. É um papel diferenciado.
P1 - E vocês mesmas pintam?
R - Tem uma menina que ela mexe só com isso, ela pinta.
P1 - E a maquiagem das pessoas como ela é? Elas são diferentes?
R - Não, é desse mesmo jeito. Os Congos são pintados assim, pinta o rosto de preto, passa branco aqui, e o batom. E os índios também, tinta vermelha, um vermelho mais para o alaranjado, e o olho aqui é azul e a boca vermelha de batom. Usam luvas. Os Congos usam luvas brancas, e os Tapuias usam luvas alaranjada, da cor do macacão.
P1 - E outra coisa que eu queria perguntar. Deixa eu ver a ordem aqui. Mas, assim, você faz com quantas mulheres junto com você? Toda essa preparação, toda essa pintura, quanto tempo leva?
R - A apresentação?
P1 - Não. Primeiro, quantas pessoas fazem essas roupas junto de você? Ou é só você?
R - Oh, a roupa do Congo, a blusa e a saia, teve uma costureira que fez. Que os Congo também usam uma meia azul, tá aqui não. Aqui, tem uma meia azul, meia calça. Aí a costureira faz. Mas esses detalhes aqui, do espelho, tem essas bolinhas aqui que tem que pregar, aí a gente termina. A gente termina. Agora, a saia dos Congo, a saia dos índios, tem que pregar a cabaça. Tem as cabaças, que tem que costurar elas aqui, para poder ficar bonito. E a gente mesmo que faz. Eu estava ficando… Eu tava comendo Tapuiada, dormindo Tapuiada, para poder fazer essas roupas aqui.
P1 - Ah, isso vai na cabeça, né?
R - Por que tem a cabeça, tem o pescoço, que tem aqui. E tem a saia com as cabaças. E aqui vem braço e perna, que é assim, aqui, assim. No braço e na perna. Fica bonito. Trabalhoso, mas é bonito. E por baixo vem um macacão.
P1 - E teve alguma?
R - E aqui ainda tem essas perneiras, que é o que os Congos usam por cima da meia. Para fazer barulho mesmo na hora que tiver dançando.
P1 - E teve alguma apresentação que mais te marcou Dona Marilda?
R - A da abertura, quando a gente fez a abertura aqui. Menino, eu tremia tanto. Foi muito bonito. Foi muito bonito.
P1 - Como é que foi esse dia?
R - Foram 20, né? Mais de 20 pessoas de cada lado. Foi muito bonito. E assim, só o fato de a gente conseguir fazer a novena de Nossa Senhora do Amparo. Aí a gente abriu e fechou a novena, foi muito bonito. Uma pena que aí, na época, a gente filmou, mandou filmar, tudo. Aí, a fita foi emprestada e não devolveram. Então a gente ficou sem registro.
P1- Nossa.
R - Não sei por onde essa fita anda.
P1 - Mas me conta, como é que foi esse dia? Começou cedo? Como é que foi?
R - Não, porque os meninos, principalmente índio, depende, ainda mais se estiver muito quente, eles não aguentam ficar com a roupa muito tempo. Então, tem que marcar com eles assim, 1h, 1h30 antes, para já vir. Aí primeiro, veste o macacão, põe tudo, as últimas coisas que põe é as roupas, ainda mais pescoço, que aquece muito. E é 1h30, a gente marca 1h30 antes. Aí a gente serve um lanche, antes de vestir a roupa, “vai todo mundo! Quem quiser ir ao banheiro, vai no banheiro, porque não vai ter jeito depois.” A hora que veste a roupa fica meio difícil.
P1 - E o que você sentiu quando você viu eles dançando com as roupas que você...?
R - Aí, é muito emocionante, Nossa Senhora! Coração acelera [risos]. Coração acelera. Ai, eu acho que a hora... Essa nova abertura, dessa Tapuiada, a hora que eu ver, eu não sei como é que vai ser não! Porque é muito trabalho, muito trabalho. Então ver realizando vai ser muito bom.
P1 - Eu gostei que você falou que era bonito a roupa, mas no corpo é mais ainda. Como que é isso?
R - É bonito o que?
P1 - A roupa é bonita, mas no corpo é mais bonita ainda.
R - A hora que veste fica bonito demais, fica muito bonito. Você vê um menino vestido. Teve um evento aqui na Câmara, esqueci qual foi o evento. E aí, o secretário pediu para poder ir os meninos vestidos para recepcionar, como se estivesse recepcionando. Mas o povo pirou! Era não sei o quê de Belo Horizonte, de Minas. Uma coisa que teve aí. Então tinham muitas cidades de Minas presentes. E todo mundo querendo tirar foto, querendo tirar foto com os meninos. Aí teve um lá que… Os meninos estavam lá parados, quietinhos. Eles pensaram que eram estátuas. A hora que os meninos mexeram, você precisava ver o susto que eles levaram [risos]. Aí, gente do céu! “Não, é carne viva!” Mas ficou bonito também. Todo mundo querendo tirar foto com eles, perguntando quando é que ia ter apresentação. Estamos tentando. Essas aqui são penas artificiais, não duráveis, porque a pena de avestruz mesmo, ou ema, elas são duráveis, elas não se desfazem muito rápido não.
P1 - A Senhora consegue mostrar um de cada vez, nessa altura?
R - Mas tá difícil de achar, né?
P1 - Essa é de quem?
R - Essa é a do Tapuio Mestre. E assim, era, a roupa do Tapuio Mestre antiga, tinha muitas penas de pavão. Mas… Aí, tá vendo? Está aqui foi a que a gente conseguiu. Muito bonita também.
P1 - E essa branca, é de quem? Se puder mostrar também.
R - É essa aqui é a do Cacique. A roupa do Cacique, da Cacica, e Caciquinha, são brancas.
P1 - E por que será que é branco? Você acha?
R - Ah, eu acho que é pra... O cacique e o mandante, né?
P1 - E essa espada? Se você puder mostrar pra gente.
R - Essa é a espada que os Congos usam para dançar. Os índios usam a flecha e os Congos a espada.
P1 - E a lança também, né dona Marilda?
R - A lança é do Cacique, da Caciquinha e da Cacica, só eles usam lança. O resto dos Tapuio usa espada. Espada não, flecha.
P1 - E me conta uma coisa. A senhora foi seguir qual profissão? A senhora disse que fez o magistério, mas e aí, como que a senhora seguiu sua vida?
R - Fiz magistério. Eu até tentei fazer vestibular, mas não deu muito certo não. Aí, depois eu fui para Brasília, fiz alguns vestibulares lá, depois vim embora de novo. Aí eu fui trabalhar no cartório, trabalhei uns anos no cartório. Depois do cartório, eu saí. Aí, eu saí do cartório, mexi uns tempos com salão. Aí, depois eu larguei tudo e fui cuidar da minha mãe, porque minha mãe era diabética, ficou diabética. Quando ela morreu, tinha 40 anos que ela era diabética, e ela parou de andar, ela ficou cega, então, 100% dependente. Aí eu larguei tudo e fui cuidar dela, vim para cá cuidar dela. Muito bom.
P1 - E você, teve filhos? Se casou? Como é que foi isso?
R - Casei, tive três filhos. Tem a Camila que mora aqui. As outras duas moram em Londres. Estão lá. Foram passear e ficaram.
P1 - Elas foram morar em Londres. Elas trabalham no quê? Como elas chegaram até lá?
R - Quando elas foram, Camila também tinha ido, né? Mas aí Camila veio embora. Minha irmã morava lá, ela estava a serviço do Itamaraty lá, aí ela levou elas. E aí, resolveram ficar, aí casaram por lá. Só que aí uma foi depois. Uma foi depois, foi para passar o final de ano. Está lá até hoje, o final de ano dela não acabou não! Casou também, tem uma filhinha. Aí estão morando lá.
P1 - A senhora tem quantos netos?
R - Nove. Nove netos. Uma lá tem seis, a outra tem uma. E Camila tem dois. Nove netos. Ultimamente nasceu um casal, gêmeos.
P1 - E como é que é ser avó, é diferente de ser mãe?
R - É, ser avó é melhor.
P1 - Por quê?
R - É muito bom ser avó. Ai, não sei, tem aquele ditado que a gente faz pro neto o que a gente não fez para o filho, né? E é mesmo. Você faz para o neto o que você não fez para o filho. Muito engraçado isso. Mas é bom. Muito bom.
P1 - E seu marido e sua mãe, faleceram já?
R - Minha mãe faleceu. Ela faleceu em 2007. Nossa, já vai fazer 20 anos. Meu pai faleceu em 2001, ela faleceu em 2007.
P1 - Seu marido separou, está aqui? Onde que ele está?
R - Ele mora aqui também. Já divorciada, já.
P1 - E me conta, como é que está sendo o seu dia a dia? A senhora se aposentou? Tá trabalhando? Como é que tá?
R - Ainda não aposentei não. Estamos aí na luta. Na luta. Eu fico aqui envolvida com essas coisas. É, neto, Tapuiada, né?
P1 - A senhora está trabalhando ou não?
R - Não. Assim, juntou muita coisa, né? Eu mexi uns tempos com cabelo, aí depois larguei e fui cuidar da minha mãe. Aí deu um desgaste muito grande de... Aí, por enquanto eu tô sem fazer nada. Estou de férias.
P1 - Mas a Tapuiada dá bastante trabalho.
R - Dá, dá. É muita coisa. Você tem que ficar correndo atrás de muita coisa, né? Dá trabalho.
P1 - E me diz uma coisa, quem está liderando esse resgate atual? É você e sua filha? Tem mais gente? Como é que tá?
R - Olha, existe… Tem um grupo, é um grupo, de que? Seis, oito pessoas. Mas você sabe que esses grupos assim, sempre sobra para um, dois, três, né? Então, tamo aí. Firme e forte.
P1 - E quem que tá mais na frente?
R - Eu e Camila.
P1 - E a Camila dançou? Dançou, não dançou. Mas a Camila se envolveu também, na época de fazer, como é que foi?
R - Eu pus ela. Eu falei não vou ficar sozinha nessa não. Aí eu puxei ela e, coitada, ela tem… Porque quando a minha menina foi ganhar os gêmeos, eu tive que ir. Eu soltei a bomba nas costas de Camila. Ela deu conta, fez a apresentação lá na Casa de Cultura, o ensaio com as vestimentas lá na Casa de Cultura, beleza! Desgastante, mas deu conta.
P1 - E aí, a missão agora é daqui a dois meses se apresentar.
R - Sim, sim. Homens ou mulheres, mas vai sair? Vai sair.
P1 - E como é que tá o preparo das roupas? O que tem que ser feito até lá?
R - Tá faltando ainda algumas roupas de índio, né? Por quê eu não fiz tudo ainda. Só que a gente tá dependendo de projeto, para poder comprar o restante das penas, para poder terminar. Essas penas brancas, nós pedimos as penas, falei: “Ah, vai chegar um tantão.” Veio um paviozinho assim, ó. Muito caro! Essas aqui, ó. Muito caras. Elas são mais caras do que as outras. Pena é muito cara. E tem lugar que vende em dólar, né? Aí fica complicado.
P1 - E me conta uma coisa Dona Marilda, você tem algum sonho hoje na sua vida? Qual seria o seu sonho?
R - Meu sonho, meu sonho é as meninas virem embora. Meu sonho é as meninas virem embora. Ficar junto, melhor. Mas acho que é meio difícil. Ultimamente meu sonho é realizar essa Tapuiada, concretizar. Isso aí.
P1 - Elas voltarem para cá, é isso?
R - É! Porque assim, é ruim. Eu falo assim, igual duas irmãs minha sempre morou fora, trabalhando pelo Itamaraty. E aí, quando meus pais faleceram, você não acha passagem, chega lá e acha passagem na mesma da hora. Foram dois dias de velório esperando elas chegarem para poder... Falei, é muito ruim. Você fica longe o tempo todo, não é todo dia que você está podendo vir. Então você fica muito tempo longe e ainda chega, quando chega essa época assim. Muito ruim.
P1 - Vocês eram muito juntas, né?
R - É.
P1 - Entendi. Me diz uma coisa, o que você achou de contar um pouquinho da sua vida? Registrar, fazer esse registro dessa cultura?
R - Ah, foi bom, né? Porque aí não fica guardado só pra gente, né? Não fica só com a gente. Era isso que a gente teria que ter feito com meu pai, com os amigos dele, né? Fazer entrevistas para poder ter um guardado, quando precisasse. Mas não fizemos. Perdemos muita coisa.
P1 - Tá certo. Mas não vamos deixar de perder de novo então, né? Para isso que nós estamos aqui.
R - Pois é.
P1 - Tá certo. Então eu agradeço muito, viu dona Marilda. Espero que não tenha doído, que não tenha sido ruim. [risos]
R - Eu que agradeço antes.
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