Desde os tempos da graduação, meu caminho sempre foi atravessado pelas pessoas egressas do sistema prisional que, ora estavam usufruindo do direito à saída temporária, ora estavam em saída definitiva do cárcere. O desemparo estampado no semblante de cada um e de cada uma, sempre mobilizou o que há de mais humano em mim. E uma dessas pessoas foi a *Maria (nome fictício)
Maria entrou no ônibus em que eu estava, visivelmente fragilizada, desprovida de dignidade. Subiu a escada do veículo com dificuldade e esticou a mão que segurava o alvará de soltura, mostrando ao motorista o papel da sua "liberdade", para que ele permitisse seu embarque. A condição de gratuidade daquela passagem obrigou Maria a permanecer na dianteira do veículo. Reparando que ela portava uma inabilidade social típica de quem teve a vida esmagada pelo sistema prisional, dei sinal para descer mas avisei ao cobrador que subiria de novo, imediatamente, para acolher e apoiar, literalmente, aquela pessoa - que tinha um caminho desafiador pela frente. Era por volta das 19h e Maria precisava descer na rodoviária municipal, pegar outro ônibus que a deixasse na rodoviária intermunicipal, onde embarcaria para o destino que a permitiria, enfim, embarcar para casa.
E ela mal conseguia ficar em pé...
Quando desembarcamos na rodoviária municipal, eu liguei para algumas amigas, pois precisava de ajuda para ajudar. Consegui contato com uma amiga que nos buscou de carro, para que Maria pudesse tomar um banho em casa, vestir uma roupa que não carregasse o estigma de ex-presidiária impregnado no olhar de quem a via vestindo aquela cor do sistema, se alimentar e se recompor daquela soltura feita sem o mínimo de respeito. Contatei a mãe de Maria, que alegrou-se imensamente ao saber da soltura da filha, se dispondo a deslocar-se pelos mais de 200km que as separavam, para buscá-la. Como já passava das 22h, com a ajuda de outra amiga, articulei com um equipamento da Assistência Social para...
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Desde os tempos da graduação, meu caminho sempre foi atravessado pelas pessoas egressas do sistema prisional que, ora estavam usufruindo do direito à saída temporária, ora estavam em saída definitiva do cárcere. O desemparo estampado no semblante de cada um e de cada uma, sempre mobilizou o que há de mais humano em mim. E uma dessas pessoas foi a *Maria (nome fictício)
Maria entrou no ônibus em que eu estava, visivelmente fragilizada, desprovida de dignidade. Subiu a escada do veículo com dificuldade e esticou a mão que segurava o alvará de soltura, mostrando ao motorista o papel da sua "liberdade", para que ele permitisse seu embarque. A condição de gratuidade daquela passagem obrigou Maria a permanecer na dianteira do veículo. Reparando que ela portava uma inabilidade social típica de quem teve a vida esmagada pelo sistema prisional, dei sinal para descer mas avisei ao cobrador que subiria de novo, imediatamente, para acolher e apoiar, literalmente, aquela pessoa - que tinha um caminho desafiador pela frente. Era por volta das 19h e Maria precisava descer na rodoviária municipal, pegar outro ônibus que a deixasse na rodoviária intermunicipal, onde embarcaria para o destino que a permitiria, enfim, embarcar para casa.
E ela mal conseguia ficar em pé...
Quando desembarcamos na rodoviária municipal, eu liguei para algumas amigas, pois precisava de ajuda para ajudar. Consegui contato com uma amiga que nos buscou de carro, para que Maria pudesse tomar um banho em casa, vestir uma roupa que não carregasse o estigma de ex-presidiária impregnado no olhar de quem a via vestindo aquela cor do sistema, se alimentar e se recompor daquela soltura feita sem o mínimo de respeito. Contatei a mãe de Maria, que alegrou-se imensamente ao saber da soltura da filha, se dispondo a deslocar-se pelos mais de 200km que as separavam, para buscá-la. Como já passava das 22h, com a ajuda de outra amiga, articulei com um equipamento da Assistência Social para que Maria pudesse pernoitar em segurança, enquanto aguardava a chegada da mãe.
Me lembro de olhar Maria vestindo roupas do meu guarda roupa, com o mesmo manequim, de cabelos longos encaracolados, tais como o meu, e pensar: poderia ser eu ali, nessa condição, ao invés dela. Porque a vida às vezes nos leva por caminhos inimagináveis...
Já era por volta das 22h, quando chegamos no equipamento da Assistência Social. No dia seguinte, às 7h30, recebi com alívio e alegria a ligação de sua mãe, que me contava que já estava à postos, na porta do abrigo, esperando a filha. Maria ousou me agradecer, pelo que julguei ser a minha obrigação como pessoa. "Quando eu pensar em Tremembé eu não vou pensar na prisão, eu vou me lembrar de VOCÊ; e de tudo que você fez por mim!"
Eu que agradeço a confiança, Maria.
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