Meu nome é Liliane Santos. Tenho 23 anos.
Sou ribeirinha. Sou negra. Sou ativista ambiental.
E sou filha da Água do Iriri.
Foi nas margens desse rio que aprendi a andar,
que ouvi os primeiros conselhos da minha avó,
que vi minha mãe lavando roupa com o rosto voltado pro céu,
como quem conversa com os encantados.
A água do Iriri não corre à toa.
Ela leva histórias, vidas, cicatrizes.
E eu carrego todas essas águas dentro de mim.
Não é fácil ser quem eu sou.
Sou jovem, mulher preta, da floresta —
e isso, para muita gente, já é um incômodo.
Falar em defesa do território, da vida, da justiça,
me transformou em alvo.
Já fui chamada de tudo:
inimiga do progresso, louca, rebelde.
Já me olharam como quem olha um perigo.
E já fui alvo de ódio — racismo, discriminação, insultos que doem mais que tapa.
Mas o Iriri me ensinou que quem enfrenta correnteza
não se curva com qualquer pedra no caminho.
A água sempre encontra um jeito de seguir.
Cada vez que tentaram me calar, eu me lembrei:
eu sou feita do rio.
E rio não aceita cerca.
Quando falo em justiça ambiental, falo de mim,
das meninas que vêm depois de mim,
dos peixes, das árvores, dos cantos do mato.
Quando me levanto, é com a força das águas.
E ninguém segura um rio quando ele decide correr.
Ser ativista é isso:
carregar no peito o peso e a beleza de um povo inteiro.
E lutar, todos os dias, pra que a água do Iriri siga limpa, viva e livre —
como nós.



